LINHAS DE AÇÕES CIENTÍFICAS E SOCIAIS


1) A nova Cartografia histórica, terras tradicionalmente ocupados e a memória oral coletiva.

Pesquisadora/membro responsável: Dra. Alanna Souto / Co- autoria Dra. Rosa E. Acevedo Marin

Chamo de "Nova" Cartografia histórica uma direção /e uma leitura descolonizadora de investigar os mapas do passado, tendo em vista que a cartografia histórica convencional somente atenta-se para os estudos dos mapas do ponto de vista das representações do Espaço. Ou seja, do espaço em concebimento a partir do ordenamento dos agentes hegemônicos seja do Estado ou das elites econômicas. E muito embora utilize dos conhecimentos dos nativos desde da época da invasão ibérica tais agentes étnicos pouco são visibilizados no que confere as práticas espaciais indígenas que exerciam nos percursos desses mapas oficiais do período colonial. E quando representados nesses mapas ainda colocados a partir de ideologias maniqueístas da época: "O bom selvagem, o mal civilizado; o mal civilizado/ o bom selvagem". Ou ainda como localizar os roteiros e percursos dos quilombolas, dos mocambos históricos? Como reconstituir uma cartografia da resistência dos quilombos do passado? Levando em consideração que a cartografia histórica convencional, também, não leva em conta as práticas espaciais quilombolas no âmbito dos estudos de mapas do passado. Sendo assim outra questão que surge: o que sabemos dos espaços que viviam as civilizações africanas escravizadas que aqui chegaram? E de que forma se recriaram e se (re) territorializaram nesses novos espaços coloniais ou ainda nos quilombos?

Não à toa, Iris Kantor, coordenadora da Biblioteca digital de Cartografia histórica da USP, argumenta a respeito das informações dos lugares, especialmente, à toponímia dos rios, as territorialidades indígenas que fizeram e/ou ainda fazem parte do território luso-americano que estavam sendo cartografados e demarcados pela Coroa Ibérica em meados do século XVIII, seja pelos mapas coloniais, seja pelos "mapas textuais" que engendram um fenômeno peculiar de "apropriação cultural dessas territorialidades nativas de conhecimento e tradução de um saber em outro, de afinação de repertórios para construção de um denominador comum" (KANTOR, 2009, p. 12-13). É justamente nesse intercurso cultural que se encontra aquela voz indígena abafada e cristalizada nos mapas oficiais para a consolidação de fronteiras dos territórios coloniais em formação, tornando a territorialidade homogênea e única em suas representações do espaço. Logo, como bem incentiva Kantor (2009), cabe aos pesquisadores o papel privilegiado de investigar e retirar o véu do ausente nestas memórias espaciais herdadas.

É nessa direção que se procede a leitura descolonizadora da Cartografia histórica no sentido de ampliar o olhar a respeito do que se entende por mapa e não se limitando apenas nos mapas coloniais propriamente ditos, seja as figuras ou os croquis ou ainda os mapas com elementos cartográficos que já marcam o perfil da cartografia de meados do século XVIII em diante. Sendo assim para localizar os percursos indígenas na formação do espaço amazônico colonial ou ainda as "nações" indígenas ou os percursos e formações dos espaços quilombolas do passado é necessário ampliar as fontes de cunho espacial. E adentrar na percepção de "mapa textual" que podem ser lidos por meio das seguintes fontes de carácter espacial: mapas de habitantes/ censos coloniais; diários de viagem; roteiros corográficos; notícias de viagens, diário de viagens de visitas pastorais; cartas de sesmarias. E dessa documentação fazer a leitura do espaço de mediação cultural e elaborar mapas que envolve percursos, rios e práticas espaciais dos povos indígenas e de quilombos que são reflexos do espaço vivido que os sujeitos viventes em encontros com esses viajantes, sejam religiosos ou naturalistas ou agentes do Estado relatam em seus transcursos de viagem. Muito embora tais informações seja a partir dos agentes coloniais que relatam tais "mapas textuais", e os mapas geoprocessados por meio do acesso a esses não se tratam da mesma posição dos mapas oficiais coloniais que se articulam em outro momento do espaço que é o espaço concebido, de ordenamento e de representações do estado, delimitações de fronteiras geo-políticas e administrativa que deixam de fora tais agentes étnicos-raciais.

Não podemos esquecer, com bem lembra Benedict Anderson (1993) em Comunidades Imaginadas, o censo, os museus e os mapas foram instrumentos efetivos para legitimar, homogeneizar e controlar os domínios coloniais dos Estados ibéricos. Nesse sentido a retomada do espaço (social) histórico por essa "nova" cartografia histórica vai se colocar problematizando a totalidade do domínio da América Ibérica para depois adentrar em territórios vividos e territorialidades específicos dos povos indígenas e quilombolas dessas situações históricas do passado.

O diálogo dessa "nova" Cartografia histórica com os povos indígenas, quilombos e outras comunidades tradicionais da contemporaneidade parte da própria necessidade desses povos para com a retomada de antigos territórios e/ou ainda com a emergência étnica de diversas comunidades caboclas reivindicando suas identidades étnicas ou ainda comunidades negras rurais retomando suas identidades quilombolas e (re)localizando em suas "memórias largas"[1] que não raro alcançam tempos dos Engenhos ou ainda das revoluções nativas anti coloniais, a exemplo da Cabanagem tão importante e revisitada pela memória coletiva das comunidades indígenas do rio Tapajós. E nesse sentido a reconstrução e elaboração de mapas dos espaços vividos de "terras tradicionalmente ocupadas" em múltiplos contextos demarcando toda uma pluralidade étnica faz-se importante, sobretudo, por meio entendimento e o mapeamento das experiências históricas desses povos delimitando seus territórios e territorialidades específicas do passado por meio de continuidades e rupturas que não necessariamente corresponderá com o tal passado que é recolocado por essas comunidades étnicas no presente.

A memória coletiva dos povos, a tradição oral e a "nova" cartografia social da Amazônia em cruzamento com a "nova" cartografia histórica ajudam assim a construir uma consciência histórica dessas classes trabalhadoras étnicas, aproximando assim da perspectiva classe de Thompson (1981,1987) quando direciona para uma compreensão da construção de uma consciência de experiência histórica para que assim se possa constituir legitimamente uma consciência de suas identidades étnicas e ancestral, de forma, viva e dinâmica a partir de suas diversidades de vivências coletivas e defesa de seus territórios em diversos contextos.


2) Práticas espaciais de saberes tradicionais dos povos e comunidades de matriz africana. Diálogos entre dois mundos- Áfricas, Afro-Amazônia e interculturalidades.

Pesquisadora/membro responsável: Dra. Selma Brito

No âmbito de luta dos povos e comunidades de matriz africana para manutenção, preservação e realização das suas práticas e de seus saberes tradicionais milenares essa linha busca propor a construção de um mapeamento histórico atualizado dos saberes a partir de seus múltiplos contextos. Demonstrando como a etnicidade desses povos se coloca acima, ou melhor, transcende a identidade afro-religiosa e passam se organizar enquanto comunidade tradicional de matriz africana. Nesse sentido entrando nas disputas por suas territorialidades e seus territórios no âmbito da cidade que tem outros demarcadores de limites e processos civilizatórios.

E tal mapeamento urge por uma atualização histórica no sentido de buscar os acervos africanos e tradições orais das Áfricas referente aos povos africanos em diásporas para o Atlântico no período do tráfico negreiro. Sendo assim há necessidade do diálogo com pesquisadores africanos, fontes locais e com representantes de comunidades tradicionais africanas a respeito dos ancestrais africanos em processos diaspóricos para Amazônia. Intercambiar pesquisadores e representantes dessas comunidades. Não para reproduzir uma África originária ou mítica, mas para reconstruir percursos, encontros e desencontros entre esses dois mundos e das Áfricas que se recriaram com os povos amazônicos. Rupturas, permanências e resistências.


3) Ciências e saberes indígenas, mapas das resistências e outras narrativas dos povos indígenas.

Pesquisadoras/ membros responsáveis:  Liderança indígena Luana Kumaruara ; Dra. Alanna Souto

A linha Ciência e Saberes indígenas tem um foco de demarcação territorial e territorialidades específicas direcionando um mapeamento dos povos indígenas por meio da tradição oral que se localiza não somente através da história oral, mas também pela música, a arte, a narrativas literárias, medicina e espiritualidade. Nesse sentido organizar junto com as lideranças indígenas de cada povo indígena ( Mura, Tembé, Kambeba, Kaiapó, Arapium, dentre outros) a elaboração dos seus mapas de saberes e da história territorial de suas nações indígenas ancestrais em que pese o alcance da memória oral coletiva nessa reconstrução com objetivo assim de reescrever e retomar espaço (social) histórico desses povos pelo viés, voz e olhar de seus próprios agentes, sejas dos povos indígenas específicos ou ainda dos indígenas tido como "índios misturados" que tem se movimentado em uma "viagem da volta" nas terras tradicionalmente ocupadas em que vivem. Descolonizando assim o "fazer-se" histórico de uma historiografia institucional dos povos originários ainda vistos, de forma, cristalizada em tempos fixos por historiografias colonialistas e branca em que o passado indígena não se faz em diálogo com uma atualização histórica dos povos do presente ou muito menos considera a história de Abya Yala (Américas) pelo olhar, mapas e narrativas dos diversos agentes dos povos indígenas.

A história das Américas deveria começar assim pelos passados dos povos que já os habitavam. Mas ainda "hoje" é muito mais demarcada com o período da invasão ibérica e do convívio com o cristianismo. E longe das referências às divindades dos povos nativos que demarcam, inclusive, territorialmente a história dessas terras nas vivências e práticas espaciais por essas cosmologias que quando referidas pela história ocidental como folclórica e suas curas colocadas no ramo da medicina popular. Primitiva. A reescrita da história se faz por meio desse giro descolonial do "fazer-se" histórico. Nesse sentido o que tem demandado sobre a história e a cartografia histórica dos povos indígenas se faz uma questão de direitos seja para a revitalização étnica de seus territórios, seja pelos reordenamentos de suas memórias espaciais específicas e de rompimento com uma ciência histórica ocidental que caminha mais perto do cristianismo do que da história dos povos ameríndios.


4) Ciência e saberes quilombolas, territórios ancestrais e desenvolvimento social.

Pesquisadora/membro responsável: Msc. Maria Páscoa Sarmento.

A linha Ciência e Saberes quilombolas engaja-se no fazer científico e orgânico de fortalecimento do patrimônio cultural e na criação de estratégias para o desenvolvimento social e sustentável dessas comunidades a partir do investimento em diversas frentes seja o da memória, história e identidades por meio das construções dos "museus vivos"; economia solidária; o feminismo comunitário; a defesa do território ancestral e a educação quilombola. Nesse sentido demarcando mapas de saberes e de desenvolvimento para essas comunidades.


5) Direitos humanos, povos indígenas e comunidades tradicionais: mapeando territórios de direitos e redes de comunicação.

Pesquisadoras/membros responsáveis: Advogada Anna Lins ; Liderança indígena e ativista Aline Kaiapó.

A linha Direitos humanos é força transversal que dialogará com todas as outras linhas demandando projetos a respeito da história de luta e direitos desses povos, sendo assim investigações que partem de questões dos direitos por meio do viés de entendimento de território, territorialidades e direitos intelectuais do ponto de vista dos povos indígenas e comunidades tradicionais. E nesse sentido mapear e demarcar uma cartografia de direitos desses povos. Os direitos de educação escolar específica. A escola indígena e escola quilombola. O direito à comunicação. Um mapeamento das formas de comunicação nessas comunidades e de que forma os direitos humanos se articula em conjunto com agentes sociais e órgãos públicos para garantia do acesso à comunicação.


6) Mapa das periferias e espaços da resistência artística: visualidades, sonoridades e corpos atuantes. 

Pesquisadora/ membro responsável: Dra. Daniely Meireles.

As periferias de uma cidade formam um complexo de vozes que demarca não somente um espaço à margem dos centros urbanos, mas também uma forma de se fazer (r)existir diante de um progresso e modernidade que pouco lhes alcança. É na periferia que, também, localiza-se demarcadores diversos de resistência nelas estão também: as tradições dos povos de terreiro, as artes do povo preto, o hip hop, o funk, traços e vivências diaspóricas africanas em múltiplos contextos periféricos, as benzedeiras, as parteiras, a cultura popular do boi, as interfaces culturais indígenas e caboclas em periferias, a exemplo do bairro do Guamá, Terra firme e Icoaraci. Como estão organizados? Quais seus demarcadores étnicos-raciais territoriais e de gênero e sexualidade? E de que forma se engajam na luta em defesa de seus territórios?


7) Mapeando a filosofia afro-diaspórica, gênero e territórios raciais na Amazônia.

Pesquisadora/membro responsável: MSc. em filosofia Lívia Noranha.

Cartografar saberes, também, envolve investigar a formação do pensamento na Amazônia referente as elaborações de suas epistemologias nativas, sobretudo, repensar o espaço filosófico Amazônico que ainda se faz espelho da produção filosófica europeia e pouquíssimo dialoga com a tradição filosófica africana de modo avaliar a própria composição filosófica das Áfricas que, também, constituíram os diversos modos de conhecimentos na Amazônia , assim como os povos indígena que aqui já habitavam. Formando assim um espaço afro diaspórico que compartilhou relações com diversos povos nativos. Tal incipiência desse campo de investigação alimenta cada vez mais o epistemicídio do pensamento afro-amazônico, resultante do intenso colonialismo interno. O que se torna ainda mais grave a ausência quando se trata de corpos femininos afro descendentes em que essas mulheres em diversos contextos da África do passado é uma referência matriz, de liderança e matriarcado, inclusive, na gestão política. É nesse sentido que o campo de estudos subalternos comprometidos com o exercício de descolonizar o saber científico filosófico, a memória histórica e a retomada da ancestralidade demarcando essa consciência filosófica africana na Amazônia que precisa libertar o seu corpo, a mente, o território filosófico racial e o gênero das invisibilidades, opressão e das amarras ocidentais.


8) Cartografia das cartografias ribeirinhas, identidades étnico-raciais e suas "encruzilhadas" das territorialidades.

      A fábula das três raças, não negando a existência dos três matizes na formação da sociedade brasileira, vai ser duramente excludente para com as sociedades ribeirinhas e campesinas resultantes de processos históricos de colonização na Amazônia por uma simples razão, como já bem observou Nugent , essa região não foi o lócus dos debates nacionais sobre raça e etnicidade, assim lembra esse autor referente a obra de cunho historiográfico "Espetáculo das raças" de Lilia Schwarcz que faz todo um levantamento convincente de como se formou a ideologia e as teses racialistas pelas instituições em meados do século XIX e da retomada da mestiçagem pelo Estado Novo, contudo a Amazônia só aparece quando se refere a criação do Museu Goeldi, o segundo museu brasileiro criado. E somente mais recentemente que passaram pautar o racismo à questão indígena no contexto dos debates raciais no cenário nacional, contudo as sociedades caboclas/ ribeirinhas ainda é um nódulo na garganta do Estado e dos grupos hegemônicos que os colocam como uma categorização incerta (caboclos, mestiços,), tal qual a categoria residual "pardo" que muitas vezes os enquadram. Nessa direção para sair da fábula do Estado e relocalizar essas vozes invisibilizadas pelo Estado que vivem pouquíssima acessibilidade dos serviços públicos, saúde sanitária e muitas em contexto de racismo ambiental, vivendo em terras tradicionalmente ocupadas que, também, demarcam fronteiras com as comunidades quilombolas e com muitos territórios indígenas é necessário que tais agentes se manifestem em suas coletividades quanto suas origens, encontros e desencontros, longe da visão colonialista interna, em suas cartografias de memórias (curtas e largas) no âmbito de suas práticas espaciais do passado e do presente referente as suas vivências resistentes em seus diversos contextos, não reduzindo a uma questão meramente identitária ou intercultural, mas no campo de resistência ao racismo estrutural que vivem esses ribeirinhos enquanto povos da Amazônia juntamente com os territórios indígenas e quilombolas em suas zonas de contato, logo pautando políticas públicas que os alcance . E que tenham direitos de serem o que são em suas relações raciais históricas em defesa das terras em que ocupam ou de retomarem qualquer identidade que suas memórias desejem emergir, longe da subordinação do vértice branco que nunca foi critério para definição de suas identidades e (r)existências, a não ser para os subordinarem em seus grandes projetos econômicos. Nesse sentido, como bem observou, Edir Augusto, de todas essas "encruzilhadas" das territorialidades que convivem as sociedades ribeirinhas, indubitavelmente, é a tensão com o Estado que demarca "tempo-espaço" diferente, o "tempo-espaço" homogêneo do Estado (nacional/ estatal) versus o "tempo-espaço" heterogêneo das comunidades tradicionais. Afinal, a destruição da comunidade é fundamental para o capitalismo. E resistir é uma história de permanência para os "condenados da terra".


9) Mapas dos povos tradicionais e vozes da periferia para a Educação: Resultados das linhas de ações científicas e sociais para o Ensino e pesquisa.

Coord. profa. Lília Melo (em parceria com as pesquisadoras do coletivo Selo Nossas Vozes e a Cartografando Saberes).

Além de pesquisadoras parceiras de universidades e representantes de escolas das comunidades.


[1] De modo similar a presencialidade do passado em que Silvia Cusicanqui localiza na perspectiva entre "memória larga, memória curta" captura a trajetória de lutas anticoloniais do campesinato andino dos anos de 1970 e 1980 em que a memória coletiva alcança o contexto de resistência de Tupac Katari no espaço colonial bolivariano. Logo, a memória oral histórica de luta desses povos não é algo fixo no presente e deve ser feita articulado com as fontes coloniais do passado. Nessa direção que o tempo da Tradição, também, vai no encontro da presencialidade desse passado. Além, de demarcar outros sujeitos que não seja somente o indíviduo, mas as divindades e os seres da natureza de seus territórios ancestrais.