História da ciência e saberes tradicionais: Práticas territoriais de saberes, propriedades intelectuais e outros mapas (bio)medicinais da mãe Pindorama amazônica e do Atlântico negro em Abya Yala.

Historicamente apropriação da biodiversidade e da agrobiodiversidade na Amazônia por grupos colonizadores já ocorre desde o período da invasão ibérica e das viagens dos grandes naturalistas e missionários que já retiravam ervas, remédios naturais e/ou plantas medicinais e exportavam para fora sem reconhecimento nenhum da relação e com o domínio dos povos nativos guardiões desses saberes, dos seus mestres e pajés. E a medida que o capitalismo avança para a Abya Yala já no pós tráfico negreiro e no espaço afro diaspórico do Atlântico Negro em que se configura a população afrodescendente, povos indígenas e seus descendentes em que suas coletividades demarcaram sua existência de vida e de ervas para usos diversos e plantas medicinais em suas comunidades, em especial, os quilombolas, os indígenas e ribeirinhos que milernamente lidam com uma medicina própria, práticas de cura e até partos das mulheres grávidas em seus povoados e aldeias. Tais práticas estão diretamente relacionadas com suas percepções de ver o mundo, de forma endógena e exógena. E, também, dessas visões que durante um longo caminho e descaminho de suas medicinas que foram resistindo diversos contatos e readaptando-se seja no âmbito da encantaria ou do xamanismo ou da pajelança indígena em que muitas comunidades indígenas tem uma relação afroindígena sem deixarem de ser indígenas com suas identificações étnicas, assim como se pode ver uma medicina quilombola e uma forte e variada medicina cabocla advinda da riqueza natural e de saberes plurais das comunidades ribeirinhas. Tais caminhos e descaminhos dessas medicinas locais precisam não somente visibilidade , mas de amparo e reconhecimento dos seus legados ligados aos povos milenares da mãe Pindorama e, também, dos encontros e desencontros do contexto doloroso do Atlântico negro em Abya Yala. Um grande inventário da memória da medicina dos povos da Amazônia em que pese todos seus processos de luta e lutos em defesa de seus corpos, terras e territórios.

Nessa direção é um modo de contrapor conhecimentos, além de essencial para abrir caminhos alternativos de desenvolvimento autônomo, já que fortalece a realização, protege seus saberes, além de procurar alternativas de formas legais para legitimar proteções comunitárias e solidárias fora do modelo hegemônico de consumo capitalista neo liberal de seus produtos e marcas empresariais dentro ou fora do poder público, ou seja, o que ajuda a gerar auto sustentabilidade. Afinal, é sabido que as bases empíricas e todos seus mecanismos elaborados em laboratórios e/ou empresas são oriundos de toda uma absorção de informações primeiramente tomadas dos nativos, sobretudo, daqueles advindos das comunidades tradicionais. Não à toa, em muitas situações o que os pajés , benzedeiras e/ou " biomédicos" dos seus saberes tradicionais realizam em suas comunidades a questão do orgânico, muito bem apontados pelo professor e quilombola Antônio Bispo, os elementos das tecnologias de receitas/fórmulas/alquimias criada pelos indígenas e pelas "populações tradicionais" diferente do saber sintético (acadêmico), conforme observa esse velho mestre do saber orgânico tradicional.

Sendo assim urge a construção de uma rede de protecção dos saberes medicinais territoriais nativos ao passo que garantam sua existência de vida, seus direitos intelectuais e econômicos que se estabelecem com suas medicinas e biomedicinas naturais comunitárias.