ARTIGOS


Há um lixão no meio do nosso caminho: Racismo e Necropolítica em ação contra as/os quilombolas de Salvaterra - PA

Maria Páscoa Sarmento, Liderança Quilombola de Salvaterra, Mestra em Planejamento do Desenvolvimento (NAEA/UFPA), Doutoranda em Antropologia (PPGA/UFPA).


Há mais de 20 anos o lixão a céu aberto do município de Salvaterra encontra-se localizado em um terreno na estrada municipal Ramal Bacabal, mais ou menos, a 3 km da sede municipal. Lá são depositados todos os dejetos e rejeitos produzidos pelos habitantes da cidade de Salvaterra, desde lixo doméstico, pneus, embalagens de venenos, restos de animais mortos (domésticos e carcaças oriundas dos açougues), vegetação dos quintais, vidros, metais, móveis e eletroeletrônicos danificados, até o lixo hospitalar, conformando um amontoado gerador de mal cheiros, chorumes, contaminações e indignidades, que invadem a referida estrada e atingem quem transita por ela a qualquer época do ano.

Imagem 1 - Lixão de Salvaterra no Ramal Bacabal

Foto: Waldo Pena

Diariamente, caminhões e carroças recolhem o lixo urbano e fazem o percurso até o lixão, isto quando chegam até lá, pois alguns costumam deixar suas cargas ao longo do caminho, a menos de 200 metros da Unidade Básica de Saúde Municipal Lauro Sousa, na saída/entrada da cidade para quem transita por este ramal, aproveitando-se do fato de não haver vigilantes ou fiscais da Prefeitura em atuação naquele local. No lixão, mais de 20 catadores, dezenas de cães, centenas de urubus, ratos, baratas, gaviões, garças, raposas e outros animais disputam tudo aquilo que ainda pode ser reaproveitado.

Quilombola transitando em meio ao lixo ao longo da estrada Ramal Bacabal

Foto: Páscoa Sarmento

No entorno do terreno do lixão existem pessoas habitando em sítios e cultivando roças, hortas e plantações de quintais, bem como criando animais domésticos e que usam água de poços para dessedentação e irrigação das culturas. Porém, estudos efetivados pela UEPA Campus de Salvaterra alertam que o lençol freático encontra-se extremamente contaminado, sendo desaconselhado o uso desta água para consumo humano. Outra questão que se põe é o fato de diversos igarapés intermitentes, entre os quais o de Passagem Grande e o do Retorna, possuírem nascentes em áreas muito próximas ao local, como pode ser observado no período do inverno amazônico, contaminando assim estes e outros mananciais.

No município de Salvaterra existem 17 quilombos autorreconhecidos, agregando em torno de 7.000 pessoas, isto é, representamos 22% da população municipal. Historicamente nosso grupo humano sofre as consequências e mazelas do racismo que estrutura as relações sociais no Brasil, como entende Silvio Almeida e, em particular na Ilha do Marajó, onde lutamos há mais de 20 anos pelo direito a titulação de nossos territórios de pertença, tal como assegurado no Artigo 68 dos ADCT da Constituição Federal de 1988, bem como batalhamos para assegurar outros direitos sociais e políticos, como, por exemplo, o cumprimento da Convenção 169 da OIT e pela efetivação da educação escolar quilombola no município. E, para piorar, há um lixão no meio do nosso caminho.

Quilombos de Salvaterra - Mapa elaborado por Gomes, Schmitz e Bringel (2018)


Desafortunadamente, este dito ramal é a estrada oficial que interliga a sede municipal e dá acesso aos quilombos Bacabal, Santa Luzia, São Benedito, Pau Furado e Barro Alto. Juntos, congregamos mais de 400 famílias e em torno de 1.500 pessoas vivendo nestes povoados. Diariamente, ao longo dos últimos anos, nós, moradores destas localidades, que precisamos ir até a cidade, somos obrigados/as a trafegar em meio a toda a sorte de lixo, expondo-nos aos perigos e ao incômodo que isso representa, em especial na época do inverno amazônico, quando tudo alaga e a estrada é tomada por dejetos e pelo chorume.

Nascida e crescida em um destes quilombos - Barro Alto - relembro as inúmeras vezes que percorri a estrada de piçarra a pé, de carroça, bicicleta, seja na lama ou na poeira, ao longo de minha infância e adolescência e nas idas e vindas entre o quilombo e a cidade de Salvaterra antes da instalação do lixão, assim como parentes e vizinhos faziam e ainda o fazem cotidianamente. Para mim, é uma estrada de longas datas e vários caminhos. Já me levou longe, mas sempre me traz de volta para cá. Acredito que, assim como para mim, é uma estrada que percorre e transporta planos, sonhos, esperanças, amores, ilusões, desilusões e perdas de muita gente que mora ou já morou por estas bandas. Por ela transitam estudantes, professores, agricultores, vaqueiros, pescadores, coletores, lavradores com seus produtos e fazeres.

Nossos velhos e velhas contam que a estrada foi "aberta" com a chegada da Fazenda Paraíso do Ministério da Agricultura nos anos 50 para transporte de máquinas agrícolas e materiais para o empreendimento, e somente passou a ser mais usada pelo pessoal daqui a partir da década de 70, pois dantes preferiam os "atalhos", os "caminhos velhos" como a Estrada do Clarindo e os rios para chegar aos outros povoados e às cidades de Soure e Salvaterra, em especial após esta tornar-se sede municipal.

A medida que a cidade foi crescendo, ao longo dos anos 90, o lixo doméstico precisou ser recolhido e retirado da área urbana, tarefa a cargo da gestão municipal, que muito oportunamente dispunha de um terreno no Ramal Bacabal e lá instalou o lixão municipal. A princípio localizado a uns 100 metros longe da estrada, com o aumento dos dejetos urbanos, foi crescendo, chegando ao tamanho atual, alcançando "a beira da estrada" e, desde uns quatro anos passados, todo um trecho da referida via.

A cada ano que passou daquele tempo para cá, nós, de Bacabal, Barro Alto, Pau Furado, Santa Luzia e São Benedito, acompanhamos apreensivos a expansão do lixão. Primeiro o fedor alcançou nossas narinas; depois o chorume encharcou nossos pés e pernas, e vieram as "coceiras brabas", "os mijacões", "as frieiras da lama do lixão"; em seguida violentaram nossos olhares os ossos e as tripas do gado e das galinhas, as carcaças dos cães sacrificados por conta do calazar, o plástico voando na brisa e enfeando as árvores, as latas, o vidro quebrado, o papel higiênico usado, a seringa/agulha de injeção e os inúmeros urubus sobrevoando o caminho. Hoje, nos alcançou a indignidade e a indignação ao sermos obrigados a transitar em meio ao lixão por quase 3 quilômetros, posto que agora este se expande desde a saída da cidade e toma as margens e o centro de nossa estrada, levado pelas enxurradas, por mãos e pés humanos e pelas bocas, garras e bicos de animais que vivem do lixo, como testemunhamos mais uma vez na semana passada.

Estrada Ramal Bacabal em meio ao lixão

Imagem: Waldo Pena

Até agora, após diversas administrações municipais, ninguém tomou providências quanto a situação do lixão de Salvaterra, que segue crescendo desordenadamente, sem cercas, sem fiscalização, sem nenhuma normativa sobre o seu funcionamento. A cada ano, entre uma reclamação e outra dos transeuntes, o gestor municipal improvisa um arremedo de fiscalização e enjambra uma "organização" dos serviços de coleta e descarte de lixo. Ação prontamente esquecida no mês seguinte e retomada na próxima reclamação.

No cerne desta questão encontra-se uma das facetas do racismo estrutural da sociedade nacional, o chamado racismo ambiental, configurando-se na prática e na forma da localização do lixão em nossa estrada, em nosso caminho diário, no caminho de nossas casas. Lixão que causa constrangimento quando temos que atravessá-lo com familiares, amigos e visitantes rumo aos nossos territórios. Fato que produz e reproduz humilhações. Que nos expõe diuturnamente aos perigos da contaminação química e biológica ao sermos obrigados a transitar em meio ao lixo contaminado.

Configura-se como racismo ambiental a prática de expor deliberadamente e recorrentemente uma população racializada e/ou grupo étnico sociologicamente minoritário aos perigos e riscos representados por agentes químicos ou biológicos capazes de causar danos à saúde física, bem como à saúde psicológica, causando-lhe constrangimento, humilhação e diminuição de sua auto estima. É como é humilhante trafegar em meio ao lixo... ser tratado/a como lixo, sem importância....descartáveis... não-humanos(as).

Neste sentido é necessário enfatizar que nunca fomos consultados e ouvidos seriamente pela gestão municipal quanto a localização do lixão no ramal de acesso aos nossos quilombos. Quase sempre a resposta às nossas recorrentes reclamações vem em forma de ações paliativas, como o uso de tratores para empurrar o lixo para fora da estrada e, no verão, tocar fogo na lixarada. Na prática, o que fazem é seguir negando-nos a dignidade humana. No episódio mais recente de "extrapolação do lixão", no sábado, 09/05/2020, em meio a pandemia da COVID 19, algumas lideranças obrigaram-se a deixar os territorios, na segunda-feira, e ir até a cidade fazer reclamações, denunciar e exigir a retirada do lixo que mais uma vez tomava toda a estrada e dificultava o trânsito, como mostram as imagens. Outra vez alguma providência mínima foi tomada pelo governante atual, colocando agentes de fiscalização e vigilante no entorno do lixão, entretanto estamos certos/as que será novamente uma medida paliativa, temporária e ineficaz.

Neste episódio é interessante ressaltar que quando um grupo de lideranças quilombolas dirigiu-se à Secretaria Municipal de Saúde de Salvaterra para denunciar e exigir providências quanto ao problema, um agente municipal informou que estavam cientes da situação do lixão e, inclusive, estiveram tentando incinerar o lixo hospitalar na Vila de Jubim, mas enfrentaram a resistência da comunidade e tiveram que retornar a incinerar o lixo do hospital municipal, que infelizmente tem 2 pacientes internados com a COVID 19, no lixão do Ramal Bacabal, na estrada dos quilombos, no caminho dos/das quilombolas. Percebemos isto como uma ação institucional discriminatória, ou ainda, discriminação indireta que tem por fundamento o racismo, como entende o professor Silvio Almeida.

Como se vê e como bem dizem nossos pretas e pretas: o 13 de maio não nos libertou!. Aqui, sentimos isso diariamente. Aparentemente, na ótica dos gestores municipais, ao contrário das pessoas de Jubim, nós podemos ficar à mercê do lixo contaminado. Nós podemos adoecer e mesmo morrer. Somos as vidas matáveis a quem Achille Mbembe se refere ao pensar a categoria necropolítica - uma política de morte que vem sendo adotada pela gestão municipal e que nos atinge diretamente. Uma política genocida que desconsidera a nossa condição humana, que, deliberadamente, parece querer garantir as nossas mortes, seja a morte física, seja a morte de nossa dignidade, seja a morte de nossa cidadania.

Mas não estamos conformados com esta situação, portanto, mais uma vez, como Zumbis e Dandaras, nos insurgimos. Através da Associação Malungu, protocolou-se um pedido de providências em relação ao lixão de Salvaterra junto ao Ministério Público do Estado do Pará e seguimos aguardando as deliberações judiciais. Queremos que retirem o lixão do meio do nosso caminho. Aqui, desde a Ilha do Marajó, Somos e Seremos Resistência. Viva Dandara! Viva Zumbi!

#QuilomboResiste. #MalungueirosdoMarajó

Quilombo Barro Alto, 22 de maio de 2020.




INSTITUTO CARTOGRAFANDO SABERES

CASA DE ELABORAÇÃO/ GESTÃO DE PROJETOS E EDITORA 

Por Alanna Souto.Professora,pesquisadora e Dra. pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido(PPGDSTU/NAEA/UFPA). Da direção do instituto.


APRESENTAÇÃO

A cartografando saberes trata-se de uma casa de elaboração e gestão de projetos científicos com viés de transformação social e político para os povos indígenas, comunidades tradicionais e agentes da periferia das cidades amazônicas que, também, demarcam uma luta de étnico-racial e, também, de gênero e sexualidade. Tempos que governos totalitários regridem direitos e conquistas dessas categorias. Quilombos, indígenas, povos da floresta amazônica, e/ou ainda os negros periféricos são colocados como peso e postos de forma uniformizados ou refém do Estado. E mais invisível, sofrida e alijada fica nesse cenário as mulheres negras, as mulheres indígenas, as mulheres dos povos de terreiros e ainda mais excluída quando essas mulheres étnicas-raciais se assumem no contexto de lutas e no campo das sociabilidades enquanto mulher LGBT.

A casa surge então em um momento extremamente trevoso em que passa o país tanto para esses povos tradicionais e vozes da periferia quanto para comunidade científica, seja os pesquisadores funcionários públicos, pesquisadores pós-doctor ou ainda centenas pesquisadores que estão de fora do acesso cada vez mais limitado de bolsas de pesquisas em todos níveis da qualificação científica.

É uma casa de elaboração e gestão de projetos que vem no exercício da realização, empoderamento e financiamento para um duplo saber científico, o acadêmico e o tradicional, além, de, também, gerar alguma renda para os pesquisadores e agentes étnicos-raciais pesquisadores envolvidos enquanto colaboradores-INVESTIGADORES(AS) ativos(a) da casa.

Para além disso o Instituto Cartografando Saberes, também, tem a funcionalidade de editora para publicação de livros e outros tipos de publicações, a exemplos de relatórios, roteiros ou boletins que dizem respeito à resultados de pesquisas dos projetos científicos e sociais em desenvolvimento pela casa.

Cartografar saberes para quê?

A Cartografando Saberes tem o entendimento que cartografar, mapear saberes entra no campo de disputa dos territórios no âmbito do espaço do poder público em que excluem saberes tradicionais e os agentes da periferia, seja nas urbes ou nas áreas rurais ou ainda nas universidades no que confere sua participação enquanto sujeitos próprios para pensar, articular e gerir seus processos históricos e projetos junto com os órgãos públicos, Ongs, fundações internacionais em prol do benefício, desenvolvimento social e sustentável de suas comunidades. Nesse sentido comunidades e pesquisadores agem como parceiros na luta por direitos, na reescrita da história do espaço social histórico desses povos, considerando suas cosmologias e práticas de saberes no tempo e no espaço. Revisitando e "descolonizando" fontes coloniais de cunho espacial em diálogo com a memória coletiva. Logo seguindo na luta pela legitimação de seus direitos intelectuais e territoriais.

Nesta direção cartografar saberes, também, pela construção de epistemologias que ande de mãos dadas com os povos indígenas e comunidades tradicionais reconhecendo as divindades e seres da natureza enquanto sujeitos que possuem direitos, territórios e história, bem como suas práticas medicinais tradicionais milenares. E nesse sentido superando o antropocentrismo, seguindo em direção do que já se tem construído e desenvolvido em alguns territórios étnicos de povos e comunidades em que seus próprios agentes fundaram seus "museus vivos"[1] compreendendo sua percepção de território e identidades que se forma fortemente com a "presencialidade do passado" sendo ressignificado e recolocado nesses centros de referências em que a história e território de cada povo étnico movimenta-se e se posiciona de forma dinâmica e plural em seus artefatos, vestígios arqueológicos, além de fontes escritas e visuais que reservam nesses "novos" museus.

A perspectiva descolonial demandada pela Cartografando Saberes tem como entendimento a direção e o engajamento dos estudos pós-coloniais no sentido de repensar os processos civilizatórios europeus que atravessaram e subjugaram os povos nativos das Américas, Áfricas e Ásias periféricas. Os pós-colonialistas, em especial, o grupo indiano dos Estudos Subalternos e pós-colonialistas africanos, a lembrar Fanon e Aimé Césaire, que retomam o colonialismo que engendrou o racismo dos tempos de colonização desses continentes e que se perpetuou no pós libertação política dessas nações, arregimentou e criou divisões de trabalho baseado em uma ideia de "raça", "vozes amarelas", "vozes negras" ou "vermelhas(indígenas)" calaram-se , abafada e diminuídas, os "condenados da terra". A Europa então o berço espelho da civilização, formatou culturas milenares, ciências e engenharias antigas ocultadas ou colocadas no campo de uma ciência primitiva ou folclórica, perseguiu línguas maternas nativas, formatou a linguagem, a medicina dos povos indígenas e comunidades tradicionais alijadas nos estudos folclóricos ou no campo de uma medicina popular. Mas os povos nunca se calaram, o silêncio se fazia algumas vezes como respostas a tirania enquanto se organizavam e mantinham vivas suas formas e práticas identitárias de seus povos ancestrais. Não de forma cristalizada. Mas sim dinâmica e móvel. A ancestralidade e o passado são recolocados e ressignificados pelas comunidades étnicas-raciais que cada vez mais emergem e reivindicam seus direitos, territórios, suas ciências e saberes.

"Ajuntávamo-nos, só para nós, os astutos: deixemos que se esgoelem, isso os alivia, cão que ladra não morde". Sartre no prefácio "Os condenados da Terra" de Fanon referindo-se à imponência das elites às expressões dos povos nativos, ribeirinhos, indígenas e negros quando desajustados da "Imensa Europa", afinal latino-americanos quando reflexo do referido "velho mundo" [nem mais velho o é] e seus tempos são premiados. Negros e indígenas "greco-latinos" com suas medalhas de reconhecimento, lutando por educação de qualidade... a europeia. O quanto há de contradição no progresso e modernidade do colonialismo interno. Há real democracia étnico-racial na democracia do capitalismo ou socialismo?

Em tempos de fascismos, ecos machistas no escuro entre esquerda ou direita volver, podem então os intelectuais/agentes sociais-étnicos subalternos falar? Podem os desajustados da ordem institucional e "condenados da terra" reescrever sua própria História?

A prosseguir.

Alanna Souto Cardoso. Direção Geral do Instituto Cartografando Saberes.

Doutora em Desenvolvimento Socioambiental pelo PPGDSTU-NAEA/UFPA.

Atualmente Pós-doutora pelo Programa de Cartografia Social e Política da Amazônia. Departamento de Ciência Sociais- UEMA.

Linhas de ações científicas e sociais:

  • A nova Cartografia histórica, terras tradicionalmente ocupados e a memória oral coletiva.

Pesquisadora responsável: Dra. Alanna Souto

Chamo de "Nova" Cartografia histórica uma direção /e uma leitura descolonizadora de investigar os mapas do passado, tendo em vista que a cartografia histórica convencional somente atenta-se para os estudos dos mapas do ponto de vista das representações do Espaço. Ou seja, do espaço em concebimento a partir do ordenamento dos agentes hegemônicos seja do Estado ou das elites econômicas. E muito embora utilize dos conhecimentos dos nativos desde da época da invasão ibérica. E tais agentes étnicos pouco são visibilizados no que confere as práticas espaciais indígenas que exerciam nos percursos desses mapas oficiais do período colonial. E quando representados nesses mapas ainda colocados a partir de ideologias maniqueístas da época: "O bom selvagem, o mal civilizado; o mal civilizado/ o bom selvagem". Ou ainda como localizar os roteiros e percursos dos quilombolas, dos mocambos históricos? Como reconstituir uma cartografia da resistência dos quilombos do passado? Levando em consideração que a cartografia histórica convencional, também, não leva em conta as práticas espaciais quilombolas no âmbito dos estudos de mapas do passado. Sendo assim outra questão que surge: o que sabemos dos espaços que viviam as civilizações africanas escravizadas que aqui chegaram? E de que forma se recriaram e se (re) territorializaram nesses novos espaços coloniais ou ainda nos quilombos?

Não à toa, Iris Kantor, coordenadora da Biblioteca digital de Cartografia histórica da USP, argumenta a respeito das informações dos lugares, especialmente, à toponímia dos rios, as territorialidades indígenas que fizeram e/ou ainda fazem parte do território luso-americano que estavam sendo cartografados e demarcados pela Coroa Ibérica em meados do século XVIII, seja pelos mapas coloniais, seja pelos "mapas textuais" que engendram um fenômeno peculiar de "apropriação cultural dessas territorialidades nativas de conhecimento e tradução de um saber em outro, de afinação de repertórios para construção de um denominador comum" (KANTOR, 2009, p. 12-13). É justamente nesse intercurso cultural que se encontra aquela voz indígena abafada e cristalizada nos mapas oficiais para a consolidação de fronteiras dos territórios coloniais em formação, tornando a territorialidade homogênea e única em suas representações do espaço. Logo, como bem incentiva Kantor (2009), cabe aos pesquisadores o papel privilegiado de investigar e retirar o véu do ausente nestas memórias espaciais herdadas.

É nessa direção que se procede a leitura descolonizadora da Cartografia histórica no sentido de ampliar o olhar a respeito do que se entende por mapa e não se limitando apenas nos mapas coloniais propriamente ditos, seja as figuras ou os croquis ou ainda os mapas com os elementos cartográficos que já marcam o perfil da cartografia de meados do século XVIII em diante. Sendo assim para localizar os percursos indígenas na formação do espaço amazônico colonial ou ainda as "nações" indígenas ou os percursos e formações dos espaços quilombolas do passado é necessário ampliar as fontes de cunho espacial. E adentrar nos "mapa textuais" que podem ser lidos por meio das seguintes fontes de caráter espacial: mapas de habitantes/ censos coloniais; diários de viagem; roteiros corográficos; notícias de viagens, diário de viagens de visitas pastorais; cartas de sesmarias. E dessa documentação fazer a leitura do espaço de mediação cultural e elaborar mapas que envolve percursos, rios e práticas espaciais dos povos indígenas e de quilombos que são reflexos do espaço vivido que os sujeitos viventes em encontros com esses viajantes, sejam religiosos ou naturalistas ou agentes do Estado relatam em seus transcursos de viagem. Muito embora tais informações seja a partir dos agentes coloniais que relatam tais "mapas textuais", e os mapas geoprocessados por meio do acesso a esses não se tratam da mesma posição dos mapas oficiais coloniais que se articulam em outro momento do espaço que é o espaço concebido, de ordenamento e de representações do estado, delimitações de fronteiras geo-políticas e administrativa que deixam de fora tais agentes étnicos-raciais.

Não podemos esquecer, com bem lembra Benedict Anderson (1993) em Comunidades Imaginadas, o censo, os museus e os mapas foram instrumentos efetivos para legitimar, homogeneizar e controlar os domínios coloniais dos Estados ibéricos. Nesse sentido a retomada do espaço (social) histórico por essa "nova" cartografia histórica vai se colocar problematizando a totalidade do domínio da América Ibérica para depois adentrar em territórios vividos e territorialidades específicos dos povos indígenas e quilombolas dessas situações históricas do passado.

O diálogo dessa "nova" Cartografia histórica com os povos indígenas, quilombos e outras comunidades tradicionais da contemporaneidade parte da própria necessidade desses povos para com a retomada de antigos territórios e/ou ainda com a emergência étnica de diversas comunidades caboclas reivindicando suas identidades étnicas ou ainda comunidades negras rurais retomando suas identidades quilombolas e (re)localizando em suas "memórias largas"[2] que não raro alcançam tempos dos Engenhos ou ainda das revoluções nativas anti coloniais, a exemplo da Cabanagem tão importante e revisitada pela memória coletiva das comunidades indígenas do rio Tapajós. E nesse sentido a reconstrução e elaboração de mapas dos espaços vividos de "terras tradicionalmente ocupadas" em múltiplos contextos demarcando toda uma pluralidade étnica faz-se importante, sobretudo, por meio entendimento e o mapeamento das experiências históricas desses povos delimitando seus territórios e territorialidades específicas do passado por meio de continuidades e rupturas que não necessariamente corresponderá como tal passado é recolocado por essas comunidades étnicas do presente.

A memória coletiva dos povos, a tradição oral e a "nova" cartografia social da Amazônia em cruzamento com a "nova" cartografia histórica ajudam assim a construir uma consciência histórica dessas categorias étnicas, aproximando assim da perspectiva classe de Thompson (1981,1987) quando direciona para uma compreensão da construção de uma consciência de experiência histórica da classe trabalhadora para que assim se possa constituir legitimamente uma consciência de suas identidades étnicas e ancestral, de forma, viva e dinâmica a partir de suas diversidades de vivências coletivas e defesa de seus territórios em diversos contextos.

2) Práticas espaciais de saberes tradicionais dos povos e comunidades de matriz africana. Diálogos entre dois mundos- Áfricas, Afro-Amazônia e interculturalidades.

Pesquisadora responsável: Dra. Selma Brito

No âmbito de luta dos povos e comunidades de matriz africana para manutenção, preservação e realização das suas práticas e de seus saberes tradicionais milenares essa linha busca propor a construção de um mapeamento histórico atualizado dos saberes a partir de seus múltiplos contextos. Demonstrando como a etnicidade desses povos se coloca acima, ou melhor, transcende a identidade afro-religiosa e passam se organizar enquanto comunidade tradicional de matriz africana. Nesse sentido entrando nas disputas por suas territorialidades e seus territórios no âmbito da cidade que tem outros demarcadores de limites e processos civilizatórios.

E tal mapeamento urge por uma atualização histórica no sentido de buscar os acervos africanos e tradições orais das Áfricas referente aos povos africanos em diásporas para o Atlântico no período do tráfico negreiro. Sendo assim há necessidade do diálogo com pesquisadores africanos, fontes locais e com representantes de comunidades tradicionais africanas a respeito dos ancestrais africanos em processos diaspóricos para Amazônia. Intercambiar pesquisadores e representantes dessas comunidades. Não para reproduzir uma África originária ou mítica, mas para reconstruir percursos, encontros e desencontros entre esses dois mundos e das Áfricas que se recriaram com os povos amazônicos. Rupturas, permanências e resistências.

3) Ciências e saberes indígenas, mapas das resistências e outras narrativas dos povos indígenas.

Pesquisadora responsável: Dra. Márcia Mura.

A linha Ciência e Saberes indígenas tem um foco de demarcação territorial e territorialidades específicas direcionando um mapeamento dos povos indígenas por meio da tradição oral que se localiza não somente por meio da história oral, mas também pela música, a arte, a narrativas literárias, medicina e espiritualidade. Nesse sentido organizar junto com as lideranças indígenas de cada povo indígena ( Mura, Tembé, Kambeba, Kaiapó, Arapium, dentre outros) a elaboração dos seus mapas de saberes e da história territorial de suas nações indígenas ancestrais em que pese o alcance da memória oral coletiva nessa reconstrução com objetivo assim de reescrever e retomar espaço (social) histórico desses povos pelo viés, voz e olhar de seus próprios agentes, sejas dos povos indígenas específicos ou ainda dos indígenas tido como "índios misturados" que tem se movimentado em uma "viagem da volta" nas terras tradicionalmente ocupadas em que vivem. Descolonizando assim o "fazer-se" histórico de uma historiografia institucional dos povos originários ainda vistos, de forma, cristalizada em tempos fixos por historiografias colonialista e branca em que o passado indígena não se faz em diálogo com uma atualização histórica dos povos do presente ou muito menos considera a história de Abya Yala (Américas) pelo olhar, mapas e narrativas dos diversos agentes dos povos indígenas.

A história das Américas deveria começar assim pelos passados dos povos que já os habitavam. Mas ainda "hoje" é muito mais demarcada com o período da invasão ibérica e do convívio com o cristianismo. E longe das referências às divindades dos povos nativos que demarcam, inclusive, territorialmente a história dessas terras nas vivências e práticas espaciais por essas cosmologias que quando referidas pela história ocidental como folclórica e suas curas colocadas no ramo da medicina popular. Primitiva. A reescrita da história se faz por meio desse diro descolonial do "fazer-se" histórico. Nesse sentido o que tem demandando sobre a história e a cartografia histórica dos povos indígenas se faz uma questão de direitos seja para a revitalização étnica de seus territórios, seja pelas reordenamentos de suas memórias espaciais específicas e de rompimento com uma ciência histórica ocidental que caminha mais perto do cristianismo do que da história dos povos ameríndios.

4) Ciência e saberes quilombolas, territórios ancestrais e desenvolvimento social.

Pesquisadora responsável: Msc. Maria Páscoa Sarmento.

A linha Ciência e Saberes quilombolas engaja-se no fazer científico e orgânico de fortalecimento do patrimônio cultural e na criação de estratégias para o desenvolvimento social e sustentável dessas comunidades a partir do investimento em diversas frentes seja o da memória, história e identidades por meio das construções dos "museus vivos"; economia solidária; o feminismo comunitário; a defesa do território ancestral e a educação quilombola. Nesse sentido demarcando mapas de saberes e de desenvolvimento para essas comunidades.

5) Direitos humanos, povos indígenas e comunidades tradicionais: mapeando territórios de direitos e redes de comunicação.

Pesquisadora responsável: Advogada Anna Lins e Dra. Alanna Souto

A linha Direitos humanos é força transversal que dialogará com todas as outras linhas demandando projetos a respeito da história de luta e direitos desses povos, sendo assim investigações que partem de questões dos direitos por meio do viés de entendimento de território, territorialidades e direitos intelectuais do ponto de vista dos povos indígenas e comunidades tradicionais. E nesse sentido mapear e demarcar uma cartografia de direitos desses povos. Os direitos de educação escolar específica. A escola indígena e escola quilombola. O direito à comunicação. Um mapeamento das formas de comunicação nessas comunidades e de que forma os direitos humanos se articula em conjunto com agentes sociais e órgãos públicos para garantia do acesso à comunicação.

6) Mapas das periferias entre trilhas sonoras visuais e poéticas de espaços da resistência: artes, cultura e cidadania.

Pesquisadora responsável: Dra. Alanna Souto e artista visual Isabela do Lago.

As periferias de uma cidade é um complexo de vozes que demarca não somente um espaço à margem dos centros principais da cidade, mas também uma forma de se fazer (r) existir diante de um progresso e modernidade que pouco lhes alcança. É na periferia que, também, localiza-se demarcadores diversos de resistência nelas estão também: as tradições dos povos de terreiro, as artes do povo preto, o hip hop, o funk, traços e vivências diaspóricas africanas em múltiplos contextos periféricos, as benzedeiras, as parteiras, a cultura popular do boi, as interfaces culturais indígenas e caboclas em periferias, a exemplo do bairro do Guamá, Terra firme e Icoaraci. Como estão organizados? Quais seus demarcadores étnicos-raciais territoriais e de gênero e sexualidade? E de que forma se engajam na luta em defesa de seus territórios.

7) Mapas dos povos tradicionais e vozes da periferia para a Educação: Resultados das linhas de ações científicas e sociais para o Ensino e pesquisa.

Coord. Alanna Souto e a profa. Lília Melo em culminância com as pesquisadoras do coletivo Selo Nossas Vozes e a Cartografando saberes. Além de pesquisadoras parceiras de universidades e representantes de escolas das comunidades.

REFERÊNCIAL BIBLIOGRÁFIA

ALMEIDA, Alfredo Wagner B. & OLIVEIRA, Murana Arenillas. Museus indígenas e quilombolas:

Manaus: UEA Edições/ PNCSA, 2017.

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas. Tradução Denise Bottmann. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.

CESAIRE, Aimér. Discurso sobre o Colonialismo. Livraria Sá da Costa. Lisboa, 1977.

CUSICANQUI, Silva Rivera. Oprimidos, pero nos vencidos. Luchas del campesinado aymara y qhechwa 1900-1980. La Mirada Selvage. 2010.

FANON. Condenados Terras. Rio de Janeiro. Ed. Civilização Brasileira. 1968.

KANTOR, Iris. Cartografia e diplomacia: usos geopolíticos da informação toponímica (1750-1850). Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 17, n. 2, jul./dez. 2009.

SOUTO, Alanna.Descolonizando a cartografia histórica amazônica: representações, fronteiras étnicas e processos de territorialização na Capitania do Pará, século XVIII. Tese de doutorado do PPGDSTU/UFPA. 2018. Disponível: https://www.etnolinguistica.org/tese:cardoso-2018

THOMPSON, E.P. A Formação da classe operária inglesa. Trad. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, volume 1, capitulo 1.

THOMPSON, E.P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Uma crítica ao pensamento de Althusser. Trad. Rio de Janeiro, Zahar editores, 1981, p 180 a 201.


[1] "Museus vivos" trata-se de um mapeamento e construção pelos agentes étnicos, povos indígenas, quilombolas, dentre outras comunidades tradicionais, em parceria com os pesquisadores do PNCSA por meio de um projeto intitulado "Projeto de Ciências e Saberes" que buscou não somente mapear, investigar e auxiliar na criação de "pequenos museus "pelos agentes étnicos envolvidos, mas também referendar esses museus criados, independente do reconhecimento e apoio do Estado, demonstrando assim que na atualidade cada vez mais instrumentalizam-se e se fortalecem. Sendo assim tais "Centros de Ciências e Saberes Tradicionais" colocam-se em um campo de resistência aos desmandos do Estado e sua política museal que historicamente dirige-se ás comunidades indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais enquanto seres exóticos e tratam sua cultura e medicina no âmbito folclórico e do "popular", tornando-se assim em diversas situações históricas reféns dos agentes do Estado ou de uma academia que ainda os colocam em tempos fixos, e longe de pensar seus processos históricos.

[2] De modo similar a presencialidade do passado em que Silvia Cusicanqui localiza na perspectiva entre "memória larga, memória curta" captura a trajetória de lutas anticoloniais do campesinato andino dos anos de 1970 e 1980 em que a memória coletiva alcança o contexto de resistência de Tupac Katari no espaço colonial bolivariano. Logo, a memória oral histórica de luta desses povos não é algo fixo no presente e deve ser feita articulado com as fontes coloniais do passado. Nessa direção que o tempo da Tradição, também, vai no encontro da presencialidade desse passado. Além, de demarcar outros sujeitos que não seja somente o indíviduo, mas as divindades e os seres da natureza de seus territórios ancestrais.