Hoje , 13 de abril, das 16h ás 18h, participei enquanto diretora do Instituto de Pesquisa Projeto Cartografando Saberes ( IPPCS) do  Webinar Cartografia Socioambiental para Belém organizado pela Coordenação de Educação Ambiental e Desenvolvimento Comunitário da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belém.

Para quem não pode participar segue a análise e apresentação que fiz nessa primeira roda de debates com a SEMMA e as demais convidadas.

O IPPCS- INSTITUTO DE PESQUISA PROJETO CARTOGRAFANDO SABERES é uma associação pública do âmbito da sociedade civil organizada que nasce reflexo do tempo conjuntural social das pesquisadoras do campo negro e dos povos da Amazônia, tendo em vista os cortes vitais que tem padecido a ciência, em especial, a ciência que abarca o campo que mobiliza estudos que envolvem a memória, os direitos, a história, os modos de pensar e de vida dos povos ; as economias solidárias; as lutas demarcatórias de terras na construção de um território de direitos. Nesse sentido a postura do governo atual deixa-nos impedidas dos debates e investigações nas universidades que garantam resultados importantes para efetivação de políticas públicas para esses povos em seus territórios tradicionais ou ainda quando deslocados nas cidades, localizando-se nas periferias nesses diversos eixos.

O IPPCS sendo uma associação nova então é importante perceber que temos projetos para dar ponto de abertura  no que estamos propondo fazer. É sem sentido comparar com Projetos que já nascem da espinha dorsal masculina e rica da universidade. 

Somos, de fato, uma associação de pesquisadoras insurgentes que atinge em cheio o canto da fábula das três raças em que o Estado construiu o discurso da mestiçagem em época ditatorial que foi o Estado Novo, e não tão longe fica de situações que estamos vivendo hoje , também, no que diz respeito o embraquecimento dos sujeitos considerados ou vistos enquanto mestizos em se tratando de povos da Amazônia . E nesse sentido as comunidades ribeirinhas são as que mais padecem nessa invisibilidade de entendimento demarcatório racial , de etnicidade e memória histórica do que realmente são.

É uma coisa muita séria, portanto, a herança pesada do colonialismo interno da fábula seja na fraude do discurso de uma democracia racial, seja nas questões de reconhecer as faces ribeirinhas enquanto, também, lideranças de retomadas étnicas concomitante com as lutas dos povos da floresta os quais eles fazem parte ou ainda do entendimento desses sujeitos ribeirinhos deslocados para cidades. Isso é questão que precisa ser melhor vista e revista, pois assim grupos historicamente violentados, alguns acabam ligados a uma perspectiva que se voltam apenas para si, e se exime de entender o seu "parente" mais próximo num âmbito de uma escala de contexto histórico e de memória, e embarcando e reproduzindo supostas parcerias com grupos hegemônicos que não há práxis emancipatória para os grupos étnicos que tentam os manter no selo do batom da boca da vértice branca dominante a qual apenas no máximo permitem que algumas lideranças se destacam, mas nunca ampliando o quadro de lideranças dos povos fora da fórmula das 3 raças em que a mão invisível do neo liberalismo joga justamente para sabotar a ampliação dessas lideranças, em especial, os sujeitos ribeirinhos e suas emergências étnicas. E isso fica cinco vezes pior quando se trata da mulher indígena, preta ou ribeirinha na floresta ou nas cidades.

O IPPCS , portanto, é um movimento acadêmico de pesquisadoras com pertencimentos de identidades étnico-raciais advindas de famílias de contextos em comunidades tradicionais e/ou periféricas e das periferias das cidades, mas também se faz político com essas pesquisadoras que, de fato, ficam excluídas por uma questão que não é somente de classe, mas também de raça, de cor e de gênero. Não obstante a sociedade ainda ser marcada por um controle territorial que se faz ainda hegemonicamente machista e heterocompulsório. Além, de LGBTfóbico.

O IPPCS surge assim primeiro com intuito de mobilizar essas pesquisadoras do campo negro e dos povos da Amazônia para reivindicar suas ciências e demandas sociais mediante as universidades e ao Estado e num segundo momento, também, fazer uma leitura descolonizadora do espaço (social) histórico dos povos.

Sendo assim o nosso giro descolonial parte da retomada do espaço (social) histórico dos povos para repensar uma outra forma de fazer história em que se evidencie o lugar do quilombo, dos territórios indígenas e dos ribeirinhos do passado concomitante o processo de ocupação de suas terras tradicionais que passam a ter que administrar em suas vidas a partir de sua forma ambivalente de Tempo-Espaço. O Tempo-espaço das suas tradições com o Tempo-espaço do Estado.

Nessa direção o movimento IPPCS então começa o seu giro descolonial a partir de 10 linhas (https://www.instituto-cartografando-saberes.com/linhas-de-acoes-cientificas-e-sociais/ ) que se propõe se movimentar nessa perspectiva de eixo de Tempo-espaço ambivalente das tradições seja por meio de um novo mapeamento do passado e os processos de retomada dos povos indígenas do presente , seja por meio do entendimento da produção indígena demarcando um novo tempo histórico científico juntamente com as pesquisas de pesquisadores, pesquisadoras quilombolas, ribeirinhos, povos de terreiros e outras comunidades tradicionais podendo assim demarcar uma mudança numa esfera cíclica da ciência ocidental fechada em suas caixas de pandora e fórmulas delimitadas em uma razão que no geral exclui outros caminhos de diferentes tradições de raciocínio, já bem observou o indiano Sanjay Seth.

Mas o que quero trabalhar com vocês hoje é justamente as questões que entrelaçam o convite que a SEMMA nos fez e que nos leva para o ponto nevrálgico da questão central "qual importância de uma cartografia sócio ambiental para gestão e educação ambiental municipal? Como se pode utilizar essa cartografia socioambiental ou ecológica para promover a educação ambiental aliada ao desenvolvimento comunitário no município de Belém? O que precisamos para fazer a cartografia socioambiental ou ecológica do município de Belém?

Essas questões se cruzam em cheio com os projetos que envolve o primeiro eixo estrutural da linha de frente do nosso instituto e do GP Cartografia das cartografias dos povos da Amazônia: História oral, territórios tradicionais e os mapas das "(r) existências" (IPPCS/ NAEA-UFPA), coordenação do GP Alanna Souto e estão associado a um eixo central de um estudo maior vinculado ao IPPCS "Por uma cartografia histórica da resistência dos povos e comunidades tradicionais da Amazônia: Patrimônio Cultural e formações educacionais comunitárias"

Projeto 1: Uma 'nova' cartografia histórica do engenhos e a "presencialidade" do passado nas comunidades tradicionais da Amazônia-Patrimônio histórico cultural, conflitos de terras entre voltas e revoltas afroindígenas. Sob minha coordenação e supervisão de Rosa E. Acevedo Marin.

É um projeto que vai se voltar mais para antigas terras de engenhos e vamos investigar de que forma essa "presencialidade do passado" se articula com as situações históricas que culminaram na formação dos quilombos e no acossamento de diversos povos indígenas de seus territórios de origem, em especial, da região do Estuário Amazônico e, especificamente, os do Baixo Tocantins, com destaques para Igarapé-Miri, Abaetetuta e Cametá; e demais áreas estuarinas marcadas pelos empreendimentos de engenhos às margens dos rios Guamá, Capim, Acará, Moju e Barcarena, além de outros pela Zona Bragantina.

Esse estudo tem o diferencial de novo mapeamento do passado a partir de uma perspectiva da elaboração de uma 'nova' cartografia histórica que mobiliza a memória oral nas investigações e nas leituras críticas das fontes coloniais do passado do que foi inscrito e escrito sobre suas terras e seus passados. E assim se adentra, também, ampliando o que se entende por mapas como uma bússola, como tudo aquilo que nos dar um roteiro de uma "cartografia" das resistências desses povos do passado e do presente a luz dessa 'nova' cartografia histórica e da História oral pela verve dos tempos e memórias largas. Essa articulação entre memória larga e curta, mais do que se assumir como algo dado, e de fundamental importância para os povos indígenas, bem como para quilombolas e ribeirinhos, deve ser direcionada como algo pensado enquanto projetos em que podemos confluir movimentos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e acadêmicos , sobretudo, com pertencimentos aos territórios tradicionais e / ou identidades étnico-raciais marcadas em suas vidas.

O projeto 2 já vai alcançar em cheio a nossa Belém além de outras regiões intitulado Uma Cartografia (Etno)Histórica da resistência e emancipatória dos espaços afros e Indígenas: Da antiga Belém Mairi aos povos da Amazônia. Sob minha coordenação e parceria NAEA/UFPA via Rosa E. Acevedo Marin, titular desse núcleo de excelência.

Esse projeto segue também a orientação do nosso primeiro eixo central de investigações "Por uma cartografia histórica da resistência dos povos e comunidades tradicionais da Amazônia: Patrimônio Cultural e formações educacionais comunitárias"

O projeto da "Da antiga Belém da Mairi aos povos da Amazônia", também, se trata de um novo mapeamento do passado em que vamos mobilizar a luz dessa 'nova' cartografia histórica e da história oral concomitante com uma metodologia interdisciplinar em que vamos fazer o movimento com as pesquisadoras acadêimicas dos povos da Amazônia e do campo negro juntamente com as parcerias das universidades envolvidas, sobretudo, o NAEA-UFPA que é o nosso grande parceiro em que temos nosso o GP Cartografia das cartografias associado ao NAEA-UFPA, e temos a honra de ter Rosa Acevedo dividindo autoria da linha 1 comigo. Ela é co-autora convidada da linha 1 e grande incentivadora desses projetos e segue nesses trabalhos conosco.

Temos um trabalho de mapeamento do passado e do presente em que memória oral mobilizada por pesquisadoras representadas pelas lideranças indígenas, quilombolas, ribeirinhas e pretas acadêmicas por região e a região metropolitana de Belém, também, está mobilizada, afinal é uma região cercada mais ou menos 39 ilhas e com uma forte presença ribeirinha. Parte -se então da velha memória da Belém da Mairi , das memórias presenciais dos povos indígenas que até hoje preservam esse entendimento ancestral para o mergulho na Belém que foi uma das portas de entradas para todo processo de territorilização que culminaram na formação dos povos da Amazônia.

Nesse trabalho vamos está investigando ainda o patrimônio cultural, os processos e práticas socioambientais que esses povos: indígenas, quilombolas, ribeirinhos, povos de terreiros se articularam entre si e entre eles para suas existências e resistência e assim cabe também pensar uma cartografia sócio ambiental enquanto ações e construções de resistências desses povos ou ainda das coletividades urbanas nas periferias.

Nesse sentido não basta apenas ficarmos no campo da investigação científica de um novo mapeamento do passado articulado com as memórias largas e curtas dos povos da Amazônia na formação das terras tradicionais ocupadas e pela visibilidade do seu patrimônio histórico cultural, mas, também, é necessário fazer com esse conhecimento investigado por esta equipe étnico-racial possam ser conduzidos no âmbito de suas escolas comunitárias, qualificando jovens e professores das próprias comunidades para que possam assumir o ensino e a escrita das histórias de suas comunidades, tendo em vista que muitos desses agentes sociais já estão na universidade, além de que poucos ainda detêm o domínio do escrever e do que inscreveram os grupos dominantes por meio da história oficial sobre as suas terras tradicionais ocupadas. Então não se trata de romper com a grade curricular do cursos de história, filosofia, letras, biomedicina, geografia ou arquitetura , mas de sim construir uma Universidade que possa acompanhar , de forma, mais democrática e liberta das amarras de uma leitura única dos tempos fixos que só conseguem movimentar coletividades no âmbito de um eixo cronológico em que os agentes sociais apenas são chamados para tratar das narrativas cotidianas quando suas tradições não estão fechadas na tampinha da cronologia ocidental, afinal o território desses povos são alvo de conflitos de terras que retomam os tempos largos da escravidão, sem essa retomada do espaço social e o entendimento dos seus processos socioambientais de resistência ficam desconectados das sincronias e diacronias do presente.  E difícil de localizar resoluções integradas e específicas para uma floresta que abarcam povos de diversas matizes ou mesmo para uma elaboração democrática de uma cartografia sócio ambiental para cidade.

Essa investigação se fecha com os resultados desse novo mapeamento do passado e do presente sendo conduzido paras as formações educacionais nas escolas comunitárias dos territórios tradicionais e das periferias da cidade.

Alanna Souto Cardoso.


ARTIGOS


TRECHO DA AVALIAÇÃO DO PROFESSOR  JOÃO PACHECO DE OLIVEIRA (Museu Nacional-UFRJ) REFERENTE A TESE Descolonizando a cartografia histórica amazônica (Cardoso 2018): tese de doutorado em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (UFPA) defendida por Alanna Souto Cardoso sob a orientação de Rosa Elizabeth Acevedo Marin ( NAEA-UFPA).


Aqui na transcrição destaquei a partir do minuto 43: 11, pois ele faz apontamentos mais críticos referente ao campo da antropologia e da história. Mas o áudio da avaliação dele ( anexo na caixa acima de diálogo) que disponibilizamos vale escutar, pois dança e joga muito bem com a tese apresentada.

No min 43:11 . João Pacheco no decorrer da avaliação faz uma crítica construtiva e relevante ao livro clássico da Manuela Carneiro da Cunha, "A história dos índios do Brasil", muito embora esse próprio mestre gigante da Antropologia Histórica reconheça que não é a minha perspectiva de trabalho e nem é a perspectiva dele no sentido que ele mesmo diz : (...) que na verdade aparentemente busca juntar história e antropologia , mas na realidade do meu ponto de vista ele só isola e junta dentro do amarrado do livro , mas o que realmente a gente vê é que os antropólogos continuam falando de seus objetos e a História brasileira convencional, classista, racista, machista , etc e tudo mais, a história brasileira continua intocada com os seus períodos , com suas coisas , ninguém detona essa história, né? Então eu acho que a preocupação do Nascimento do Brasil ao falar de antropologia histórica é isso. Nós não queremos recontar a história de um fragmento: por que esse lápis está sem a cabeça dele? Nós queremos discutir todo cenário, nós queremos discutir as relações de dominação, a composição, as ideologias porque se não for isso nós não vamos entender nunca o Brasil. O Brasil vai continuar a ser uma peça bastante copiada do EXTERIOR E SÓ VAI FAZER SENTIDO enquanto modelo copiado de matrizes europeias, francesas, japonesas, inglesa, americana, russa, chinesa, mas o Brasil nunca pode falar enquanto Brasil, pois ele não será nunca contador de uma voz própria..."

(...) Então eu gostei muito desse teu exercício de atravessar os tempos históricos fazendo uma leitura rica e densa das pessoas. E procurar fazer com que elas realmente vivam...os temas, as interpretações, eles não são somente de um século, eles passam para outros. E eles são sempre reescritos. Uma hora de uma observação que você faz ao final do trabalho ...é anotando dentro do seus levantamento apareciam 146 povos indígenas...então toda essa quantidade de povos. Hoje na região marcada por isso, você pode chegar e levantar 6 (seis) povos, agora na realidade esse cálculo é um cálculo parcial, pois a gente está terminando um jogo que não acabou, alguns desses que não está lá dentro. Vão aparecer, como o borari, como outros e realmente as emergências estão acontecendo a todo momento e são absolutamente legítimas e essas pessoas estão procurando descobrir um destino que foi reprimido ...foi desensinado, foi escamoteado deles...então esse processo vai continuar existir...

"Outro ponto é a questão da descolonização que você já coloca bem dentro do título do trabalho. É uma discussão que começa e termina o trabalho...é sim sua mais reiterada marca..."

' Mas eu acho que queria retomar um pouco essa discussão de descolonização que hoje, também, já virando uma palavra de uso comum dentro da antropologia , das ciências humanas, etc...então quando vocês ouvirem o uso, vocês não batem palma...vocês podem estar falando de coisas bastante equivocadas...e eu acho que você soube se mexer muito bem dentro dessa área.

De um lado existe mais pessoalmente na antropologia, uma visão da descolonização que é muito carregada no sentido de pensar cada povo como a mônada , como um planeta isolado, como uma galáxia isolada, e as categorias são todas marcar as especificidades daquela população , daquele modo de pensar, se recupera a filosofia... se recupera categorias como ontologia, epistemologias e se faz sempre dentro dessa ideia da virada , nessa direção, trabalha-se sempre com coisas que em outro momento , você diria pura e simplesmente são culturais , mas agora você tem nomes mais ilustres, mais profundos ...mas continuam ser coisas culturais.

O que a gente tem sempre que se perguntar ...o que existe atrás desse tipo de construção. E eu acho que é sempre o essencialismo. Você transformar , grupos de pessoas, épocas ...que passam fazer sentidos nelas mesmas que passam significar o que você quiser,conforme seus interesses, e com as suas ideias...essa questão do essencialismo ...na antropologia é uma moda que graça, de um modo extremo...aí você quer originalidade, mas você pensa os Xavantes, por exemplo, aí você quer repensar o mundo na escala xavante, você quer repensar o mundo na escala Ianomami, você quer pensar o mundo na escala de uma população específica , mas esses são exercícios míopes! "E ninguém vai descolonizar a partir desta perspectiva ...essa perspectiva vai permitir compreender a relação entre a sociedade, aqueles atores diretamente envolvidos e aquela população ...vai ser possível encontrar as agências dos indígenas em escala local, mas para entender o Brasil...isso aí é uma gota d`água...isso aí não tem nenhum sentido...dentro de um processo como esse , o Brasil não é país marcado pela presença de um grupo étnico que tem capacidade de imposição sobre outro, mas é um país marcado por uma fragmentação extrema de populações ...então você entrar numa perspectiva dessa é você está realmente abrindo mão de uma visão de totalidade do Brasil. Para você simplesmente produzir utopias bonitas, específicas, isoladas, mas que não tem nenhuma aplicação , somente se aplica em escala estritamente local...

"Em outra direção queria voltar para essa questão do essencialismo...e acho que você faz isso com muito cuidado porque esse tipo de essencialismo ele seduz muito aos militantes políticos e frequentemente ele permite falar de uma especificidade radical... uma especificidade que aparentemente é só dele...da vitória moral...perdemos em todos os aspectos, mas ganhamos o da vitória moral...eu acho que é uma visão absolutamente culturalista e defasada. Ninguém quer uma vitória moral...as pessoas querem uma VITÓRIA TOTAL! Elas querem terra, elas querem saúde, elas querem educação, elas querem também reforçar o orgulho étnico, a língua, os rituais, e tudo mais , elas não querem separar essa parte...esses são índios de museu, sempre com tacapes, pintados, que estão colocado em vitrine para serem vista e imutáveis. Mas a realidade não é assim ..."

"Você cita o Said e o Said tem trechos belíssimos que ele diz que a melhor condição não é aquele que se orgulha da sua identidade , mas aquele que é capaz de transitar a outras áreas , o exilado, enxergar a sua e os outros, então na verdade é esse o exercício importante...esse exercício você faz com muito cuidado . Em nenhum momento você embarca em uma ideologia específica de indígena, específica de quilombola...então você conseguiu lidar muito bem com isso, embora do ponto de vista político é muito sedutor ...é na verdade quem está se entregando ao canto de sirena de um ponto de vista absolutamente imobilista, elitista e que pensa o contrário de todas as propostas.

" Você cita o Fanon : " o negro é mais para o outro do que o colonizador"...ele é mais para outro. Isso que dizer o que: Nas suas cogitações. Ele considera mais a presença do outro. Fanon claro ele não esta falando de uma coisa isolada. Ele está falando do negro, sobretudo, da África... Ele está falando sobre uma realidade específica...eu acho que isso pode ser transportado ipsis litteris para todos os dominados, só quem navega à velas plenas são os dominantes, dominado sempre tem que dominar a situação, sempre tem aprender mais de uma língua... usar diferentes códigos, faz parte de suas estratégias de luta e se descolocar por diferentes coletivos..."

" Você fala que não é somente trabalhar com uma experiência de um só ator , mas trabalhar com as interações... com as lutas e com os conflitos."

João Pacheco segue avaliando e relacionando a tese com outros caminhos alternativos para os trabalhos científicos juntamente com os indígenas. Em especial, sobre as reflexões dos indígenas referente as lutas indígenas e os conflitos de terra que estão relacionadas com diversos aspectos inclusive para o entendimento das sociedades indígenas.

Tese disponível na Biblioteca Digital Curt Nimuendajú :  https://www.etnolinguistica.org/tese:cardoso-2018



APRESENTAÇÃO DO PROJETO INSTITUTO CARTOGRAFANDO SABERES NA ASSEMBLEIA REALIZADA NO DIA 25/08/2020 PARA APROVAÇÃO DO PROJETO, ESTATUTO E CORPUS INSTITUCIONAL.

POR ALANNA SOUTO



"Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens...
Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua da memória.
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz... "

Belchior adaptado.

Das minhas inspirações, percepções e como foi pensado o projeto instituto Cartografando Saber.

1) O projeto surgiu inicialmente das minhas angustias pessoais, e posteriormente, coletiva, sobretudo, quando eu já estava mobilizada em um outro projeto coletivo que é o selo Nossas vozes ( trata-se de um coletivo de publicação científica e outras narrativas organizado por mulheres do campo negro e dos povos da Amazônia), vivenciando as inviabilizações, os cortes da conjuntura atual referente a realização científica em um campo de estudos que caminha com os agentes sociais historicamente subalternizados, sejam esses, também, pesquisadores acadêmicos ou agentes comunitários que buscam o diálogo e parceria com esse tipo de movimento acadêmico e que, infelizmente, atualmente tem sido bem pontuais esses tipos de ações de pesquisa e projetos sociais dentro da universidade e cada vez mais de pouquíssima acessibilidade em receber novas iniciativas, novos projetos nesses eixos. Ficando toda uma gama pesquisadores, investigadores, educadores de fora, impedidos. "Eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos jovens..."

2) Tendo em vista todo esse processo de exclusão que vai afetar, sobretudo, os pesquisadores pretos, os indígenas, os quilombos, os "mestizos", não obstante a mestiçagem no âmbito de uma relação afroindígena na perspectiva do campo da contra mestiçagem afroameríndia e dos ameríndios, em especial, quando se pensa nos ribeirinhos e seus descendentes seja nos rios ou deslocados para as periferias das cidades ou ainda nas coletividades de matriz africana. Logo, tal contexto de exclusão e cortes justifica a escolha do corpus institucional do projeto ser encabeçado por mulheres desse recorte de etnicidade, raça, gênero e classe social. Apesar desse recorte de gênero na gestão, como organização tem a finalidade de atender os territórios tradicionais e periféricos estará totalmente aberta para dialogar com os pesquisadores, profissionais homens desse front étnico-racial os quais poderão participar enquanto colaboradores, aliados e conselheiros, conforme consenso da assembleia.

3) Assim como houve a preocupação, também, de se pensar na questão estrutural para se realizar um projeto que são os recursos e o mínimo de remuneração adequada aos pesquisadores. Isso certamente exige uma reação e organicidade para buscar as fontes de captação de recursos para a nossa associação. Então o projeto surge primeiramente da necessidade de auto inclusão dessas reivindicações sociais e científicas. E que na verdade reflete todo esse processo que já vem sendo colocado na América latina e na África, em especial, com os estudos pós coloniais alinhados em uma investigação não somente científica, mas também política, no sentido mesmo de romper com uma perspectiva de histórica única. E de descolonizar e repensar uma ciência liderada, sobretudo, por grupos hegemônicos, buscando assim fortalecer, reconhecer e qualificar as autoridades científicas dos campos periféricos e dos territórios tradicionais dentro e fora da academia que estão levando adiante seus projetos, buscando alternativas de organização institucional e reivindicando apoio, financiamento.

4) Aí entra necessidade da organização desses intelectuais, investigadores, educadores, lideranças e agentes que estão atuando junto com o movimento acadêmico periférico e assim fazer o front, construir um espaço de produção, de criação, elaboração, qualificação dos profissionais e agentes envolvidos. Além, do retorno social para as comunidades e aos povos da Amazônia.

5) Afinal, os esforços atuais que estamos nesse momento nos organizando é não somente exigir políticas públicas por meio de projetos que ajudem na autonomia desses povos e comunidades junto com o fazer científico e social, mas também a importância das associações e das formas organizativas comunitárias para o fortalecimento dos seus meios de consolidação dos conhecimentos e saberes práticos dos povos indígenas, comunidades tradicionais e grupos periféricos urbanos.

6) Feita que essa primeira introdução das causas e da importância da organização é importante, também, explanar um pouco sobre as linhas de ações, posto que não se trata apenas de projetos científicos, mas também de projetos sociais articulados com diversas esferas da sociedade por meio dos grupos de trabalho que analisem o mapeamento desses territórios tradicionais e/ ou periféricos como uma forma de fortalecer as suas gestões comunitárias e lhes garanta vida; a preservação dos seus recursos hídricos e naturais; os seus direitos territoriais nas práticas de seus saberes e territorialidades em seu tempo e espaço; a manutenção de suas cosmologias ; da sua tradição oral ; línguas e defesa da sua comunicação e educação específica na qualificação dos professores e professoras das próprias comunidades; sejam esses indígenas e/ou quilombolas; assim como a importância da educação popular freireana para as escolas básicas referente as comunidades ribeirinhas, campesina e das periferias da cidade.

8) Nessa direção o instituto começa, a princípio, abrindo com oito linhas de ações:

1) A nova cartografia histórica, terras tradicionais ocupadas e memória oral coletiva

Dra. Alanna Souto 

Trata-se de um novo mapeamento do passado referente as práticas espaciais de grupos étnicos, sejam esses indígenas ou quilombolas, dos territórios do passado que atualmente estão abarcados nas chamadas terras tradicionalmente ocupadas em diálogo com a memória oral coletiva, tendo em vista que o território é o elemento essencial em diversos conflitos de terras, e como bem lembra Boaventura Santos, a temporalidade das lutas de indígenas e dos povos quilombolas, a luta pela terra desses povos está ligada ao tempo largo da escravidão, à colonização e todos os esbulhos dos territórios forjados pelos colonizadores, diferente, por exemplo, da temporalidade do movimento sem-terra que é mais vinculado ao momento atual de concentração fundiária.

2 ) Práticas espaciais de saberes tradicionais dos povos e comunidades de matriz africana. Diálogos entre dois mundos- Áfricas, Afro-Amazônia e interculturalidades.

Temos na coordenação dessa linha a profa. Dra. Selma Brito que vai buscar traçar todo esse mapeamento em diálogo com a patrimônio, memória, religião, etnicidade, os processos diaspóricos desses povos e comunidades de matriz africana. Pensando nas Áfricas que aqui chegaram, de forma articulada, com o continente africano, em especial, com as nações que atravessaram para a Amazônia do passado colonial e investigar como elas se recriaram no espaço amazônico. E nesse sentido visando esse intercâmbio entre dois mundos.

Outro ponto é investigar os processos afrodiásporicos na formação dos povos de terreiros, e a organização de um inventário de memórias dessas comunidades no espaço afro amazônico em defesa de seu território, territorialidades em diversos contextos.

3) Ciências e saberes indígenas, mapas das resistências e outras narrativas dos povos indígenas. Pesquisadoras/ membros responsáveis:

Coord. Institucional Dra. Alanna Souto Cardoso.

As pesquisadoras articuladoras Luana da Silva Cardoso* Kumaruara e Hellen Rocha (Hellen Arapiun). Tal linha de ação vai se centrar em um mapeamento que tem como base eminentemente a tradição oral das nações indígenas em seus múltiplos aspectos, sobretudo, no maior entendimento das categorias espaço-tempo dos povos indígenas, buscando perceber mesmo como se constrói um outro "regime de historicidade" considerando o tempo-espaço desses povos não pautado no regime de historicidade europeu...

E assim fazer junto com pesquisadores um movimento acadêmico e dos saberes tradicionais abra um novo lugar na canoa do tempo da universidade e possa repensar a diversidade do Tempo/ espaço histórico dos territórios que envolvem os povos da Amazônia dentro do Estado brasileiro , seja no campo da etnografia, arqueologia, demografia histórica, sociologia, para além da gaiola da História ou do tempo curto antropológico.

De todo modo essa linha é mais do que história indígena no que se refere digo na especificidade no âmbito do contextos de suas "nações", mas também, é literatura indígena, é medicina tradicional, cartografia indígena na diversidades de seus grupos, então essa linha ação perpassa mais do que história.  É o que estou chamando de mapas de resistência que adentra no tempo da tradição oral que é outro tempo histórico e não linear.

Então esses mapas de resistência perpassa a formação do mundo indígena, a cosmogonia, o espaço vivido, a geografia, a cultura que é delineada por meio da tradição oral que é mais do que oralidade. E um outro aspecto de história oral.

O que nos faz lembrar um pouco do esforço que fez Lévi- Strauss para a construção do livro o Pensamento selvagem, muito embora, sejamos mais descoloniais, pois aqui não tem nenhum francês para decodificar a "ciência do concreto" e as filosofias indígenas, não desmerecendo esse livro de fundamental importância para a compreensão do pensamento de outros povos.  Nessa direção a dimensão da luta anti colonial que se está travando é mais do que no campo do discurso, mas na práxis, dentro da percepção científica dos saberes e do lugar de fala dos agentes, narrada pelos próprios agentes.

4) Ciência e saberes quilombolas, territórios ancestrais e desenvolvimento social. Pesquisadora/membro responsável: Msc. Maria Páscoa Sarmento.

É uma outra linha ação que tem como pesquisadora a mestre e quilombola Maria Páscoa, e que, atualmente, está concluindo o doutorado em antropologia, e vem fazer esse trabalho de mapeamento em diversas frentes dos modos de conhecimento locais e científico visando o fortalecimento e desenvolvimento social dessas comunidades na Pan Amazônia.

5) Direitos humanos, povos indígenas e comunidades tradicionais: mapeando territórios de direitos e redes de comunicação.

Pesquisadoras/membros responsáveis: Advogada Anna Lins; e a liderança indígena Aline Kaiapó

A linha direitos humanos, povos indígenas e comunidades tradicionais mapeando territórios de direitos temos como uma das coordenadoras a nossa querida advogada Anna Lins que tem uma história linda e consistente na luta dos direitos humanos na Amazônia que junto conosco vai estar pensando e atuando nesse rede de mapeamento de direitos e comunicação dos povos e comunidades periféricas a partir de diversas frentes: seja no campo do patrimônio cultural, memória, território, redes de comunicação, saúde e defesa da mulher, educação, etc.

E para abrir e compor a formação da gestão dos direitos humanos no âmbito dos povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia mais recentemente entrou a presença fundamental e primordial para essa linha a pesquisadora, ativista dos direitos humanos, estudante da faculdade de direitos e liderança indígena Aline Kaiapó.

6) Mapas das periferias entre trilhas sonoras visuais e poéticas de espaços da resistência: artes, cultura e cidadania. Pesquisadora/ agente responsável: 

Temos como pesquisadora a doutora Danielly Meireles que tem experiência na temática e vai desenvolver esse trabalho de mapeamento coletivo e de empoderamento dos espaço culturais e protagonismo periférico no campo das arte, cultura e cidadania.

7) Mapeando a filosofia afro-diaspórica, gênero e territórios raciais na Amazônia. Tem como coordenadora responsável: MSc. em filosofia e profa. Lívia Noranha.

Essa linha visa uma investigação verificando o processo de formação e atuação do pensamento afro-diásporico em seus múltiplos contextos repensando o espaço filosófico na Amazônia em diálogo com questão de gênero, a memória histórica ancestral e os territórios raciais. Fazendo esse debate a partir da perspectiva, também, dos corpos étnico-raciais e na práxis construindo um projeto descolonial que faça uma leitura crítica dessa produção filosófica europeia formativa e criando assim um novo lugar para essa filosofio afro-diáspórica em Abya Yala (América Latina), na Amazônia e dentro da universidade.

8) Mapas dos povos tradicionais e vozes da periferia para a Educação: Resultados das linhas de ações científicas e sociais para o Ensino e pesquisa.

Coord. Lília Melo.

A nossa gestora educacional vai ser a Lília Melo que vai buscar direcionar para os grupos práticas e ações para que se possa movimentar esse conhecimento, os resultados e os produtos dos projetos para escolas do ensino básico da periferia em diálogo com essas pesquisas e ações sociais





Há um lixão no meio do nosso caminho: Racismo e Necropolítica em ação contra as/os quilombolas de Salvaterra - PA

Maria Páscoa Sarmento, Liderança Quilombola de Salvaterra, Mestra em Planejamento do Desenvolvimento (NAEA/UFPA), Doutoranda em Antropologia (PPGA/UFPA).


Há mais de 20 anos o lixão a céu aberto do município de Salvaterra encontra-se localizado em um terreno na estrada municipal Ramal Bacabal, mais ou menos, a 3 km da sede municipal. Lá são depositados todos os dejetos e rejeitos produzidos pelos habitantes da cidade de Salvaterra, desde lixo doméstico, pneus, embalagens de venenos, restos de animais mortos (domésticos e carcaças oriundas dos açougues), vegetação dos quintais, vidros, metais, móveis e eletroeletrônicos danificados, até o lixo hospitalar, conformando um amontoado gerador de mal cheiros, chorumes, contaminações e indignidades, que invadem a referida estrada e atingem quem transita por ela a qualquer época do ano.

Imagem 1 - Lixão de Salvaterra no Ramal Bacabal

Foto: Waldo Pena

Diariamente, caminhões e carroças recolhem o lixo urbano e fazem o percurso até o lixão, isto quando chegam até lá, pois alguns costumam deixar suas cargas ao longo do caminho, a menos de 200 metros da Unidade Básica de Saúde Municipal Lauro Sousa, na saída/entrada da cidade para quem transita por este ramal, aproveitando-se do fato de não haver vigilantes ou fiscais da Prefeitura em atuação naquele local. No lixão, mais de 20 catadores, dezenas de cães, centenas de urubus, ratos, baratas, gaviões, garças, raposas e outros animais disputam tudo aquilo que ainda pode ser reaproveitado.

Quilombola transitando em meio ao lixo ao longo da estrada Ramal Bacabal

Foto: Páscoa Sarmento

No entorno do terreno do lixão existem pessoas habitando em sítios e cultivando roças, hortas e plantações de quintais, bem como criando animais domésticos e que usam água de poços para dessedentação e irrigação das culturas. Porém, estudos efetivados pela UEPA Campus de Salvaterra alertam que o lençol freático encontra-se extremamente contaminado, sendo desaconselhado o uso desta água para consumo humano. Outra questão que se põe é o fato de diversos igarapés intermitentes, entre os quais o de Passagem Grande e o do Retorna, possuírem nascentes em áreas muito próximas ao local, como pode ser observado no período do inverno amazônico, contaminando assim estes e outros mananciais.

No município de Salvaterra existem 17 quilombos autorreconhecidos, agregando em torno de 7.000 pessoas, isto é, representamos 22% da população municipal. Historicamente nosso grupo humano sofre as consequências e mazelas do racismo que estrutura as relações sociais no Brasil, como entende Silvio Almeida e, em particular na Ilha do Marajó, onde lutamos há mais de 20 anos pelo direito a titulação de nossos territórios de pertença, tal como assegurado no Artigo 68 dos ADCT da Constituição Federal de 1988, bem como batalhamos para assegurar outros direitos sociais e políticos, como, por exemplo, o cumprimento da Convenção 169 da OIT e pela efetivação da educação escolar quilombola no município. E, para piorar, há um lixão no meio do nosso caminho.

Quilombos de Salvaterra - Mapa elaborado por Gomes, Schmitz e Bringel (2018)


Desafortunadamente, este dito ramal é a estrada oficial que interliga a sede municipal e dá acesso aos quilombos Bacabal, Santa Luzia, São Benedito, Pau Furado e Barro Alto. Juntos, congregamos mais de 400 famílias e em torno de 1.500 pessoas vivendo nestes povoados. Diariamente, ao longo dos últimos anos, nós, moradores destas localidades, que precisamos ir até a cidade, somos obrigados/as a trafegar em meio a toda a sorte de lixo, expondo-nos aos perigos e ao incômodo que isso representa, em especial na época do inverno amazônico, quando tudo alaga e a estrada é tomada por dejetos e pelo chorume.

Nascida e crescida em um destes quilombos - Barro Alto - relembro as inúmeras vezes que percorri a estrada de piçarra a pé, de carroça, bicicleta, seja na lama ou na poeira, ao longo de minha infância e adolescência e nas idas e vindas entre o quilombo e a cidade de Salvaterra antes da instalação do lixão, assim como parentes e vizinhos faziam e ainda o fazem cotidianamente. Para mim, é uma estrada de longas datas e vários caminhos. Já me levou longe, mas sempre me traz de volta para cá. Acredito que, assim como para mim, é uma estrada que percorre e transporta planos, sonhos, esperanças, amores, ilusões, desilusões e perdas de muita gente que mora ou já morou por estas bandas. Por ela transitam estudantes, professores, agricultores, vaqueiros, pescadores, coletores, lavradores com seus produtos e fazeres.

Nossos velhos e velhas contam que a estrada foi "aberta" com a chegada da Fazenda Paraíso do Ministério da Agricultura nos anos 50 para transporte de máquinas agrícolas e materiais para o empreendimento, e somente passou a ser mais usada pelo pessoal daqui a partir da década de 70, pois dantes preferiam os "atalhos", os "caminhos velhos" como a Estrada do Clarindo e os rios para chegar aos outros povoados e às cidades de Soure e Salvaterra, em especial após esta tornar-se sede municipal.

A medida que a cidade foi crescendo, ao longo dos anos 90, o lixo doméstico precisou ser recolhido e retirado da área urbana, tarefa a cargo da gestão municipal, que muito oportunamente dispunha de um terreno no Ramal Bacabal e lá instalou o lixão municipal. A princípio localizado a uns 100 metros longe da estrada, com o aumento dos dejetos urbanos, foi crescendo, chegando ao tamanho atual, alcançando "a beira da estrada" e, desde uns quatro anos passados, todo um trecho da referida via.

A cada ano que passou daquele tempo para cá, nós, de Bacabal, Barro Alto, Pau Furado, Santa Luzia e São Benedito, acompanhamos apreensivos a expansão do lixão. Primeiro o fedor alcançou nossas narinas; depois o chorume encharcou nossos pés e pernas, e vieram as "coceiras brabas", "os mijacões", "as frieiras da lama do lixão"; em seguida violentaram nossos olhares os ossos e as tripas do gado e das galinhas, as carcaças dos cães sacrificados por conta do calazar, o plástico voando na brisa e enfeando as árvores, as latas, o vidro quebrado, o papel higiênico usado, a seringa/agulha de injeção e os inúmeros urubus sobrevoando o caminho. Hoje, nos alcançou a indignidade e a indignação ao sermos obrigados a transitar em meio ao lixão por quase 3 quilômetros, posto que agora este se expande desde a saída da cidade e toma as margens e o centro de nossa estrada, levado pelas enxurradas, por mãos e pés humanos e pelas bocas, garras e bicos de animais que vivem do lixo, como testemunhamos mais uma vez na semana passada.

Estrada Ramal Bacabal em meio ao lixão

Imagem: Waldo Pena

Até agora, após diversas administrações municipais, ninguém tomou providências quanto a situação do lixão de Salvaterra, que segue crescendo desordenadamente, sem cercas, sem fiscalização, sem nenhuma normativa sobre o seu funcionamento. A cada ano, entre uma reclamação e outra dos transeuntes, o gestor municipal improvisa um arremedo de fiscalização e enjambra uma "organização" dos serviços de coleta e descarte de lixo. Ação prontamente esquecida no mês seguinte e retomada na próxima reclamação.

No cerne desta questão encontra-se uma das facetas do racismo estrutural da sociedade nacional, o chamado racismo ambiental, configurando-se na prática e na forma da localização do lixão em nossa estrada, em nosso caminho diário, no caminho de nossas casas. Lixão que causa constrangimento quando temos que atravessá-lo com familiares, amigos e visitantes rumo aos nossos territórios. Fato que produz e reproduz humilhações. Que nos expõe diuturnamente aos perigos da contaminação química e biológica ao sermos obrigados a transitar em meio ao lixo contaminado.

Configura-se como racismo ambiental a prática de expor deliberadamente e recorrentemente uma população racializada e/ou grupo étnico sociologicamente minoritário aos perigos e riscos representados por agentes químicos ou biológicos capazes de causar danos à saúde física, bem como à saúde psicológica, causando-lhe constrangimento, humilhação e diminuição de sua auto estima. É como é humilhante trafegar em meio ao lixo... ser tratado/a como lixo, sem importância....descartáveis... não-humanos(as).

Neste sentido é necessário enfatizar que nunca fomos consultados e ouvidos seriamente pela gestão municipal quanto a localização do lixão no ramal de acesso aos nossos quilombos. Quase sempre a resposta às nossas recorrentes reclamações vem em forma de ações paliativas, como o uso de tratores para empurrar o lixo para fora da estrada e, no verão, tocar fogo na lixarada. Na prática, o que fazem é seguir negando-nos a dignidade humana. No episódio mais recente de "extrapolação do lixão", no sábado, 09/05/2020, em meio a pandemia da COVID 19, algumas lideranças obrigaram-se a deixar os territorios, na segunda-feira, e ir até a cidade fazer reclamações, denunciar e exigir a retirada do lixo que mais uma vez tomava toda a estrada e dificultava o trânsito, como mostram as imagens. Outra vez alguma providência mínima foi tomada pelo governante atual, colocando agentes de fiscalização e vigilante no entorno do lixão, entretanto estamos certos/as que será novamente uma medida paliativa, temporária e ineficaz.

Neste episódio é interessante ressaltar que quando um grupo de lideranças quilombolas dirigiu-se à Secretaria Municipal de Saúde de Salvaterra para denunciar e exigir providências quanto ao problema, um agente municipal informou que estavam cientes da situação do lixão e, inclusive, estiveram tentando incinerar o lixo hospitalar na Vila de Jubim, mas enfrentaram a resistência da comunidade e tiveram que retornar a incinerar o lixo do hospital municipal, que infelizmente tem 2 pacientes internados com a COVID 19, no lixão do Ramal Bacabal, na estrada dos quilombos, no caminho dos/das quilombolas. Percebemos isto como uma ação institucional discriminatória, ou ainda, discriminação indireta que tem por fundamento o racismo, como entende o professor Silvio Almeida.

Como se vê e como bem dizem nossos pretas e pretas: o 13 de maio não nos libertou!. Aqui, sentimos isso diariamente. Aparentemente, na ótica dos gestores municipais, ao contrário das pessoas de Jubim, nós podemos ficar à mercê do lixo contaminado. Nós podemos adoecer e mesmo morrer. Somos as vidas matáveis a quem Achille Mbembe se refere ao pensar a categoria necropolítica - uma política de morte que vem sendo adotada pela gestão municipal e que nos atinge diretamente. Uma política genocida que desconsidera a nossa condição humana, que, deliberadamente, parece querer garantir as nossas mortes, seja a morte física, seja a morte de nossa dignidade, seja a morte de nossa cidadania.

Mas não estamos conformados com esta situação, portanto, mais uma vez, como Zumbis e Dandaras, nos insurgimos. Através da Associação Malungu, protocolou-se um pedido de providências em relação ao lixão de Salvaterra junto ao Ministério Público do Estado do Pará e seguimos aguardando as deliberações judiciais. Queremos que retirem o lixão do meio do nosso caminho. Aqui, desde a Ilha do Marajó, Somos e Seremos Resistência. Viva Dandara! Viva Zumbi!

#QuilomboResiste. #MalungueirosdoMarajó

Quilombo Barro Alto, 22 de maio de 2020.




INSTITUTO CARTOGRAFANDO SABERES

CASA DE ELABORAÇÃO/ GESTÃO DE PROJETOS E EDITORA 

Por Alanna Souto.Professora,pesquisadora e Dra. pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido(PPGDSTU/NAEA/UFPA). Da direção do instituto.


APRESENTAÇÃO

A cartografando saberes trata-se de uma casa de elaboração e gestão de projetos científicos com viés de transformação social e político para os povos indígenas, comunidades tradicionais e agentes da periferia das cidades amazônicas que, também, demarcam uma luta de étnico-racial e, também, de gênero e sexualidade. Tempos que governos totalitários regridem direitos e conquistas dessas categorias. Quilombos, indígenas, povos da floresta amazônica, e/ou ainda os negros periféricos são colocados como peso e postos de forma uniformizados ou refém do Estado. E mais invisível, sofrida e alijada fica nesse cenário as mulheres negras, as mulheres indígenas, as mulheres dos povos de terreiros e ainda mais excluída quando essas mulheres étnicas-raciais se assumem no contexto de lutas e no campo das sociabilidades enquanto mulher LGBT.

A casa surge então em um momento extremamente trevoso em que passa o país tanto para esses povos tradicionais e vozes da periferia quanto para comunidade científica, seja os pesquisadores funcionários públicos, pesquisadores pós-doctor ou ainda centenas pesquisadores que estão de fora do acesso cada vez mais limitado de bolsas de pesquisas em todos níveis da qualificação científica.

É uma casa de elaboração e gestão de projetos que vem no exercício da realização, empoderamento e financiamento para um duplo saber científico, o acadêmico e o tradicional, além, de, também, gerar alguma renda para os pesquisadores e agentes étnicos-raciais pesquisadores envolvidos enquanto colaboradores-INVESTIGADORES(AS) ativos(a) da casa.

Para além disso o Instituto Cartografando Saberes, também, tem a funcionalidade de editora para publicação de livros e outros tipos de publicações, a exemplos de relatórios, roteiros ou boletins que dizem respeito à resultados de pesquisas dos projetos científicos e sociais em desenvolvimento pela casa.

Cartografar saberes para quê?

A Cartografando Saberes tem o entendimento que cartografar, mapear saberes entra no campo de disputa dos territórios no âmbito do espaço do poder público em que excluem saberes tradicionais e os agentes da periferia, seja nas urbes ou nas áreas rurais ou ainda nas universidades no que confere sua participação enquanto sujeitos próprios para pensar, articular e gerir seus processos históricos e projetos junto com os órgãos públicos, Ongs, fundações internacionais em prol do benefício, desenvolvimento social e sustentável de suas comunidades. Nesse sentido comunidades e pesquisadores agem como parceiros na luta por direitos, na reescrita da história do espaço social histórico desses povos, considerando suas cosmologias e práticas de saberes no tempo e no espaço. Revisitando e "descolonizando" fontes coloniais de cunho espacial em diálogo com a memória coletiva. Logo seguindo na luta pela legitimação de seus direitos intelectuais e territoriais.

Nesta direção cartografar saberes, também, pela construção de epistemologias que ande de mãos dadas com os povos indígenas e comunidades tradicionais reconhecendo as divindades e seres da natureza enquanto sujeitos que possuem direitos, territórios e história, bem como suas práticas medicinais tradicionais milenares. E nesse sentido superando o antropocentrismo, seguindo em direção do que já se tem construído e desenvolvido em alguns territórios étnicos de povos e comunidades em que seus próprios agentes fundaram seus "museus vivos"[1] compreendendo sua percepção de território e identidades que se forma fortemente com a "presencialidade do passado" sendo ressignificado e recolocado nesses centros de referências em que a história e território de cada povo étnico movimenta-se e se posiciona de forma dinâmica e plural em seus artefatos, vestígios arqueológicos, além de fontes escritas e visuais que reservam nesses "novos" museus.

A perspectiva descolonial demandada pela Cartografando Saberes tem como entendimento a direção e o engajamento dos estudos pós-coloniais no sentido de repensar os processos civilizatórios europeus que atravessaram e subjugaram os povos nativos das Américas, Áfricas e Ásias periféricas. Os pós-colonialistas, em especial, o grupo indiano dos Estudos Subalternos e pós-colonialistas africanos, a lembrar Fanon e Aimé Césaire, que retomam o colonialismo que engendrou o racismo dos tempos de colonização desses continentes e que se perpetuou no pós libertação política dessas nações, arregimentou e criou divisões de trabalho baseado em uma ideia de "raça", "vozes amarelas", "vozes negras" ou "vermelhas(indígenas)" calaram-se , abafada e diminuídas, os "condenados da terra". A Europa então o berço espelho da civilização, formatou culturas milenares, ciências e engenharias antigas ocultadas ou colocadas no campo de uma ciência primitiva ou folclórica, perseguiu línguas maternas nativas, formatou a linguagem, a medicina dos povos indígenas e comunidades tradicionais alijadas nos estudos folclóricos ou no campo de uma medicina popular. Mas os povos nunca se calaram, o silêncio se fazia algumas vezes como respostas a tirania enquanto se organizavam e mantinham vivas suas formas e práticas identitárias de seus povos ancestrais. Não de forma cristalizada. Mas sim dinâmica e móvel. A ancestralidade e o passado são recolocados e ressignificados pelas comunidades étnicas-raciais que cada vez mais emergem e reivindicam seus direitos, territórios, suas ciências e saberes.

"Ajuntávamo-nos, só para nós, os astutos: deixemos que se esgoelem, isso os alivia, cão que ladra não morde". Sartre no prefácio "Os condenados da Terra" de Fanon referindo-se à imponência das elites às expressões dos povos nativos, ribeirinhos, indígenas e negros quando desajustados da "Imensa Europa", afinal latino-americanos quando reflexo do referido "velho mundo" [nem mais velho o é] e seus tempos são premiados. Negros e indígenas "greco-latinos" com suas medalhas de reconhecimento, lutando por educação de qualidade... a europeia. O quanto há de contradição no progresso e modernidade do colonialismo interno. Há real democracia étnico-racial na democracia do capitalismo ou socialismo?

Em tempos de fascismos, ecos machistas no escuro entre esquerda ou direita volver, podem então os intelectuais/agentes sociais-étnicos subalternos falar? Podem os desajustados da ordem institucional e "condenados da terra" reescrever sua própria História?

A prosseguir.

Alanna Souto Cardoso. Direção Geral do Instituto Cartografando Saberes.

Doutora em Desenvolvimento Socioambiental pelo PPGDSTU-NAEA/UFPA.

Atualmente Pós-doutora pelo Programa de Cartografia Social e Política da Amazônia. Departamento de Ciência Sociais- UEMA.

Linhas de ações científicas e sociais:

  • A nova Cartografia histórica, terras tradicionalmente ocupados e a memória oral coletiva.

Pesquisadora responsável: Dra. Alanna Souto

Chamo de "Nova" Cartografia histórica uma direção /e uma leitura descolonizadora de investigar os mapas do passado, tendo em vista que a cartografia histórica convencional somente atenta-se para os estudos dos mapas do ponto de vista das representações do Espaço. Ou seja, do espaço em concebimento a partir do ordenamento dos agentes hegemônicos seja do Estado ou das elites econômicas. E muito embora utilize dos conhecimentos dos nativos desde da época da invasão ibérica. E tais agentes étnicos pouco são visibilizados no que confere as práticas espaciais indígenas que exerciam nos percursos desses mapas oficiais do período colonial. E quando representados nesses mapas ainda colocados a partir de ideologias maniqueístas da época: "O bom selvagem, o mal civilizado; o mal civilizado/ o bom selvagem". Ou ainda como localizar os roteiros e percursos dos quilombolas, dos mocambos históricos? Como reconstituir uma cartografia da resistência dos quilombos do passado? Levando em consideração que a cartografia histórica convencional, também, não leva em conta as práticas espaciais quilombolas no âmbito dos estudos de mapas do passado. Sendo assim outra questão que surge: o que sabemos dos espaços que viviam as civilizações africanas escravizadas que aqui chegaram? E de que forma se recriaram e se (re) territorializaram nesses novos espaços coloniais ou ainda nos quilombos?

Não à toa, Iris Kantor, coordenadora da Biblioteca digital de Cartografia histórica da USP, argumenta a respeito das informações dos lugares, especialmente, à toponímia dos rios, as territorialidades indígenas que fizeram e/ou ainda fazem parte do território luso-americano que estavam sendo cartografados e demarcados pela Coroa Ibérica em meados do século XVIII, seja pelos mapas coloniais, seja pelos "mapas textuais" que engendram um fenômeno peculiar de "apropriação cultural dessas territorialidades nativas de conhecimento e tradução de um saber em outro, de afinação de repertórios para construção de um denominador comum" (KANTOR, 2009, p. 12-13). É justamente nesse intercurso cultural que se encontra aquela voz indígena abafada e cristalizada nos mapas oficiais para a consolidação de fronteiras dos territórios coloniais em formação, tornando a territorialidade homogênea e única em suas representações do espaço. Logo, como bem incentiva Kantor (2009), cabe aos pesquisadores o papel privilegiado de investigar e retirar o véu do ausente nestas memórias espaciais herdadas.

É nessa direção que se procede a leitura descolonizadora da Cartografia histórica no sentido de ampliar o olhar a respeito do que se entende por mapa e não se limitando apenas nos mapas coloniais propriamente ditos, seja as figuras ou os croquis ou ainda os mapas com os elementos cartográficos que já marcam o perfil da cartografia de meados do século XVIII em diante. Sendo assim para localizar os percursos indígenas na formação do espaço amazônico colonial ou ainda as "nações" indígenas ou os percursos e formações dos espaços quilombolas do passado é necessário ampliar as fontes de cunho espacial. E adentrar nos "mapa textuais" que podem ser lidos por meio das seguintes fontes de caráter espacial: mapas de habitantes/ censos coloniais; diários de viagem; roteiros corográficos; notícias de viagens, diário de viagens de visitas pastorais; cartas de sesmarias. E dessa documentação fazer a leitura do espaço de mediação cultural e elaborar mapas que envolve percursos, rios e práticas espaciais dos povos indígenas e de quilombos que são reflexos do espaço vivido que os sujeitos viventes em encontros com esses viajantes, sejam religiosos ou naturalistas ou agentes do Estado relatam em seus transcursos de viagem. Muito embora tais informações seja a partir dos agentes coloniais que relatam tais "mapas textuais", e os mapas geoprocessados por meio do acesso a esses não se tratam da mesma posição dos mapas oficiais coloniais que se articulam em outro momento do espaço que é o espaço concebido, de ordenamento e de representações do estado, delimitações de fronteiras geo-políticas e administrativa que deixam de fora tais agentes étnicos-raciais.

Não podemos esquecer, com bem lembra Benedict Anderson (1993) em Comunidades Imaginadas, o censo, os museus e os mapas foram instrumentos efetivos para legitimar, homogeneizar e controlar os domínios coloniais dos Estados ibéricos. Nesse sentido a retomada do espaço (social) histórico por essa "nova" cartografia histórica vai se colocar problematizando a totalidade do domínio da América Ibérica para depois adentrar em territórios vividos e territorialidades específicos dos povos indígenas e quilombolas dessas situações históricas do passado.

O diálogo dessa "nova" Cartografia histórica com os povos indígenas, quilombos e outras comunidades tradicionais da contemporaneidade parte da própria necessidade desses povos para com a retomada de antigos territórios e/ou ainda com a emergência étnica de diversas comunidades caboclas reivindicando suas identidades étnicas ou ainda comunidades negras rurais retomando suas identidades quilombolas e (re)localizando em suas "memórias largas"[2] que não raro alcançam tempos dos Engenhos ou ainda das revoluções nativas anti coloniais, a exemplo da Cabanagem tão importante e revisitada pela memória coletiva das comunidades indígenas do rio Tapajós. E nesse sentido a reconstrução e elaboração de mapas dos espaços vividos de "terras tradicionalmente ocupadas" em múltiplos contextos demarcando toda uma pluralidade étnica faz-se importante, sobretudo, por meio entendimento e o mapeamento das experiências históricas desses povos delimitando seus territórios e territorialidades específicas do passado por meio de continuidades e rupturas que não necessariamente corresponderá como tal passado é recolocado por essas comunidades étnicas do presente.

A memória coletiva dos povos, a tradição oral e a "nova" cartografia social da Amazônia em cruzamento com a "nova" cartografia histórica ajudam assim a construir uma consciência histórica dessas categorias étnicas, aproximando assim da perspectiva classe de Thompson (1981,1987) quando direciona para uma compreensão da construção de uma consciência de experiência histórica da classe trabalhadora para que assim se possa constituir legitimamente uma consciência de suas identidades étnicas e ancestral, de forma, viva e dinâmica a partir de suas diversidades de vivências coletivas e defesa de seus territórios em diversos contextos.

2) Práticas espaciais de saberes tradicionais dos povos e comunidades de matriz africana. Diálogos entre dois mundos- Áfricas, Afro-Amazônia e interculturalidades.

Pesquisadora responsável: Dra. Selma Brito

No âmbito de luta dos povos e comunidades de matriz africana para manutenção, preservação e realização das suas práticas e de seus saberes tradicionais milenares essa linha busca propor a construção de um mapeamento histórico atualizado dos saberes a partir de seus múltiplos contextos. Demonstrando como a etnicidade desses povos se coloca acima, ou melhor, transcende a identidade afro-religiosa e passam se organizar enquanto comunidade tradicional de matriz africana. Nesse sentido entrando nas disputas por suas territorialidades e seus territórios no âmbito da cidade que tem outros demarcadores de limites e processos civilizatórios.

E tal mapeamento urge por uma atualização histórica no sentido de buscar os acervos africanos e tradições orais das Áfricas referente aos povos africanos em diásporas para o Atlântico no período do tráfico negreiro. Sendo assim há necessidade do diálogo com pesquisadores africanos, fontes locais e com representantes de comunidades tradicionais africanas a respeito dos ancestrais africanos em processos diaspóricos para Amazônia. Intercambiar pesquisadores e representantes dessas comunidades. Não para reproduzir uma África originária ou mítica, mas para reconstruir percursos, encontros e desencontros entre esses dois mundos e das Áfricas que se recriaram com os povos amazônicos. Rupturas, permanências e resistências.

3) Ciências e saberes indígenas, mapas das resistências e outras narrativas dos povos indígenas.

Pesquisadora responsável:  Dra. Alanna Souto ; Liderança indígena Luana Kumaruara

A linha Ciência e Saberes indígenas tem um foco de demarcação territorial e territorialidades específicas direcionando um mapeamento dos povos indígenas por meio da tradição oral que se localiza não somente por meio da história oral, mas também pela música, a arte, a narrativas literárias, medicina e espiritualidade. Nesse sentido organizar junto com as lideranças indígenas de cada povo indígena ( Mura, Tembé, Kambeba, Kaiapó, Arapium, dentre outros) a elaboração dos seus mapas de saberes e da história territorial de suas nações indígenas ancestrais em que pese o alcance da memória oral coletiva nessa reconstrução com objetivo assim de reescrever e retomar espaço (social) histórico desses povos pelo viés, voz e olhar de seus próprios agentes, sejas dos povos indígenas específicos ou ainda dos indígenas tido como "índios misturados" que tem se movimentado em uma "viagem da volta" nas terras tradicionalmente ocupadas em que vivem. Descolonizando assim o "fazer-se" histórico de uma historiografia institucional dos povos originários ainda vistos, de forma, cristalizada em tempos fixos por historiografias colonialista e branca em que o passado indígena não se faz em diálogo com uma atualização histórica dos povos do presente ou muito menos considera a história de Abya Yala (Américas) pelo olhar, mapas e narrativas dos diversos agentes dos povos indígenas.

A história das Américas deveria começar assim pelos passados dos povos que já os habitavam. Mas ainda "hoje" é muito mais demarcada com o período da invasão ibérica e do convívio com o cristianismo. E longe das referências às divindades dos povos nativos que demarcam, inclusive, territorialmente a história dessas terras nas vivências e práticas espaciais por essas cosmologias que quando referidas pela história ocidental como folclórica e suas curas colocadas no ramo da medicina popular. Primitiva. A reescrita da história se faz por meio desse giro descolonial do "fazer-se" histórico. Nesse sentido o que tem demandando sobre a história e a cartografia histórica dos povos indígenas se faz uma questão de direitos seja para a revitalização étnica de seus territórios, seja pelas reordenamentos de suas memórias espaciais específicas e de rompimento com uma ciência histórica ocidental que caminha mais perto do cristianismo do que da história dos povos ameríndios.

4) Ciência e saberes quilombolas, territórios ancestrais e desenvolvimento social.

Pesquisadora responsável: Msc. Maria Páscoa Sarmento.

A linha Ciência e Saberes quilombolas engaja-se no fazer científico e orgânico de fortalecimento do patrimônio cultural e na criação de estratégias para o desenvolvimento social e sustentável dessas comunidades a partir do investimento em diversas frentes seja o da memória, história e identidades por meio das construções dos "museus vivos"; economia solidária; o feminismo comunitário; a defesa do território ancestral e a educação quilombola. Nesse sentido demarcando mapas de saberes e de desenvolvimento para essas comunidades.

5) Direitos humanos, povos indígenas e comunidades tradicionais: mapeando territórios de direitos e redes de comunicação.

Pesquisadora responsável: Advogada Anna Lins 

A linha Direitos humanos é força transversal que dialogará com todas as outras linhas demandando projetos a respeito da história de luta e direitos desses povos, sendo assim investigações que partem de questões dos direitos por meio do viés de entendimento de território, territorialidades e direitos intelectuais do ponto de vista dos povos indígenas e comunidades tradicionais. E nesse sentido mapear e demarcar uma cartografia de direitos desses povos. Os direitos de educação escolar específica. A escola indígena e escola quilombola. O direito à comunicação. Um mapeamento das formas de comunicação nessas comunidades e de que forma os direitos humanos se articula em conjunto com agentes sociais e órgãos públicos para garantia do acesso à comunicação.

6) Mapas das periferias entre trilhas sonoras visuais e poéticas de espaços da resistência: artes, cultura e cidadania.

Pesquisadora responsável: Dra.  Danielly Meireles

As periferias de uma cidade é um complexo de vozes que demarca não somente um espaço à margem dos centros principais da cidade, mas também uma forma de se fazer (r) existir diante de um progresso e modernidade que pouco lhes alcança. É na periferia que, também, localiza-se demarcadores diversos de resistência nelas estão também: as tradições dos povos de terreiro, as artes do povo preto, o hip hop, o funk, traços e vivências diaspóricas africanas em múltiplos contextos periféricos, as benzedeiras, as parteiras, a cultura popular do boi, as interfaces culturais indígenas e caboclas em periferias, a exemplo do bairro do Guamá, Terra firme e Icoaraci. Como estão organizados? Quais seus demarcadores étnicos-raciais territoriais e de gênero e sexualidade? E de que forma se engajam na luta em defesa de seus territórios.

7)  Mapeando a filosofia afro-diaspórica, gênero e território raciais na Amazônia.

Pesquisadora/agente responsável: MSc. em filosofia Lívia Noranha.

Cartografar saberes, também, envolve investigar a formação do pensamento na Amazônia referente as elaborações de suas epistemologias nativas, sobretudo, repensar o espaço filosófico Amazônico que ainda se faz espelho da produção filosófica europeia e pouquíssimo dialoga com a tradição filosófica africana de modo avaliar a própria composição filosófica das Áfricas que, também, constituíram os diversos modos de conhecimentos na Amazônia , assim como os povos indígena que aqui já habitavam. Formando assim um espaço afro diaspórico que compartilhou relações com diversos povos nativos. Tal incipiência desse campo de investigação alimenta cada vez mais o epistemicídio do pensamento afro-amazônico, resultante do intenso colonialismo interno. O que se torna ainda mais grave a ausência quando se trata de corpos femininos afro descendentes em que essas mulheres em diversos contextos da África do passado é uma referência matriz, de liderança e matriarcado, inclusive, na gestão política. É nesse sentido que o campo de estudos subalternos comprometidos com o exercício de descolonizar o saber científico filosófico, a memória histórica e a retomada da ancestralidade demarcando essa consciência filosófica africana na Amazônia que precisa libertar o seu corpo, a mente, o território filosófico racial e o gênero das invisibilidades, opressão e das amarras ocidentais.

8) Mapas dos povos tradicionais e vozes da periferia para a Educação: Resultados das linhas de ações científicas e sociais para o Ensino e pesquisa.

Coord. Alanna Souto e a profa. Lília Melo em culminância com as pesquisadoras do coletivo Selo Nossas Vozes e a Cartografando saberes. Além de pesquisadoras parceiras de universidades e representantes de escolas das comunidades.

REFERÊNCIAL BIBLIOGRÁFIA

ALMEIDA, Alfredo Wagner B. & OLIVEIRA, Murana Arenillas. Museus indígenas e quilombolas:

Manaus: UEA Edições/ PNCSA, 2017.

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas. Tradução Denise Bottmann. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.

CESAIRE, Aimér. Discurso sobre o Colonialismo. Livraria Sá da Costa. Lisboa, 1977.

CUSICANQUI, Silva Rivera. Oprimidos, pero nos vencidos. Luchas del campesinado aymara y qhechwa 1900-1980. La Mirada Selvage. 2010.

FANON. Condenados Terras. Rio de Janeiro. Ed. Civilização Brasileira. 1968.

KANTOR, Iris. Cartografia e diplomacia: usos geopolíticos da informação toponímica (1750-1850). Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 17, n. 2, jul./dez. 2009.

SOUTO, Alanna.Descolonizando a cartografia histórica amazônica: representações, fronteiras étnicas e processos de territorialização na Capitania do Pará, século XVIII. Tese de doutorado do PPGDSTU/UFPA. 2018. Disponível: https://www.etnolinguistica.org/tese:cardoso-2018

THOMPSON, E.P. A Formação da classe operária inglesa. Trad. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, volume 1, capitulo 1.

THOMPSON, E.P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Uma crítica ao pensamento de Althusser. Trad. Rio de Janeiro, Zahar editores, 1981, p 180 a 201.


[1] "Museus vivos" trata-se de um mapeamento e construção pelos agentes étnicos, povos indígenas, quilombolas, dentre outras comunidades tradicionais, em parceria com os pesquisadores do PNCSA por meio de um projeto intitulado "Projeto de Ciências e Saberes" que buscou não somente mapear, investigar e auxiliar na criação de "pequenos museus "pelos agentes étnicos envolvidos, mas também referendar esses museus criados, independente do reconhecimento e apoio do Estado, demonstrando assim que na atualidade cada vez mais instrumentalizam-se e se fortalecem. Sendo assim tais "Centros de Ciências e Saberes Tradicionais" colocam-se em um campo de resistência aos desmandos do Estado e sua política museal que historicamente dirige-se ás comunidades indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais enquanto seres exóticos e tratam sua cultura e medicina no âmbito folclórico e do "popular", tornando-se assim em diversas situações históricas reféns dos agentes do Estado ou de uma academia que ainda os colocam em tempos fixos, e longe de pensar seus processos históricos.

[2] De modo similar a presencialidade do passado em que Silvia Cusicanqui localiza na perspectiva entre "memória larga, memória curta" captura a trajetória de lutas anticoloniais do campesinato andino dos anos de 1970 e 1980 em que a memória coletiva alcança o contexto de resistência de Tupac Katari no espaço colonial bolivariano. Logo, a memória oral histórica de luta desses povos não é algo fixo no presente e deve ser feita articulado com as fontes coloniais do passado. Nessa direção que o tempo da Tradição, também, vai no encontro da presencialidade desse passado. Além, de demarcar outros sujeitos que não seja somente o indíviduo, mas as divindades e os seres da natureza de seus territórios ancestrais.