
APRESENTAÇÃO
O IPPCS – Instituto de Pesquisa Projeto Cartografando Saberes é uma pessoa jurídica de caráter científico e social, sem fins econômicos, dotada de autonomia para a elaboração e gestão de projetos, estabelecimento de parcerias e captação de recursos destinados à realização de seus objetivos institucionais.
Com sede e foro no município de Belém, Estado do Pará, duração por tempo indeterminado e atuação em todo o território nacional, o Instituto também desenvolve articulações e parcerias com organizações e instituições da Pan-Amazônia, regendo-se por seu Estatuto, aprovado pela Assembleia de membros fundadores, e pelas demais disposições legais aplicáveis.
Entre seus fins e objetivos institucionais estão o apoio, o desenvolvimento e a promoção de projetos relacionados à educação, história, filosofia, literatura, arte, memória, desenvolvimento social, direitos, comunicação e patrimônio cultural, especialmente aqueles comprometidos com a visibilidade e o protagonismo de povos indígenas, comunidades tradicionais, populações negras, ribeirinhas e demais sujeitos historicamente situados às margens dos espaços institucionais de poder, bem como com o enfrentamento ao racismo, ao machismo e à LGBTfobia.
O Instituto busca investigar e construir novas cartografias do passado e do presente, considerando os espaços socio-históricos e culturais dos povos da Amazônia e das periferias urbanas, tornando visíveis seus diversos saberes e colocando-os em diálogo com as múltiplas formas de registro da memória coletiva e das tradições orais.
Também articula parcerias e intercâmbios com instituições, fundações, organizações sociais e grupos de pesquisa da Pan-Amazônia que atuam nos territórios e na defesa dos direitos dos povos, comunidades e sujeitos historicamente subalternizados.
Compreendemos a Pan-Amazônia como um espaço atravessado por processos históricos compartilhados, ainda que marcado por profundas particularidades territoriais, culturais e políticas. Nele vivem populações das florestas, matas, campos, rios, ilhas, comunidades rurais e cidades amazônicas, constituindo distintas experiências de territorialidade.
Nesse sentido, o IPPCS constitui-se como uma casa de elaboração, investigação, articulação e gestão de projetos, voltada ao fortalecimento e ao financiamento de diferentes formas de produção do conhecimento. Reconhece tanto os saberes produzidos no campo acadêmico quanto aqueles constituídos nas experiências históricas, comunitárias e territoriais.
Busca-se, igualmente, criar condições para que pesquisadores(as), educadores(as) comunitários(as), agentes étnico-raciais e detentores(as) de notórios saberes possam participar como investigadores(as) e colaboradores(as) ativos(as) dos projetos desenvolvidos pela instituição, inclusive mediante remuneração quando prevista nos respectivos projetos e instrumentos de financiamento.
O Cartografando Saberes também possui atuação editorial, destinada à publicação e divulgação de livros, relatórios, cadernos, roteiros, boletins e outros produtos derivados das pesquisas e dos projetos científicos e sociais desenvolvidos pelo Instituto.
CARTOGRAFAR SABERES PARA QUÊ?
O Cartografando Saberes compreende que cartografar e mapear saberes também significa atuar em um campo de disputas pelo território, pela memória, pela produção do conhecimento e pelo direito de representação.
Nos espaços do poder público — e também nas universidades — saberes tradicionais e sujeitos das periferias urbanas e rurais foram historicamente excluídos ou colocados em posições secundárias. Essa exclusão restringe sua participação como sujeitos capazes de pensar, interpretar, articular e gerir seus próprios processos históricos e projetos, inclusive nas relações estabelecidas com órgãos públicos, organizações sociais, fundações e instituições nacionais e internacionais voltadas ao desenvolvimento social e sustentável de suas comunidades.
Nesse sentido, comunidades, pesquisadores(as), educadores(as) e agentes territoriais atuam como parceiros na luta por direitos e na reescrita das histórias sociais e territoriais de seus povos, considerando suas cosmologias, memórias e práticas de saber no Tempo-Espaço.
Cartografar implica, portanto, revisitar criticamente e descolonizar as leituras das fontes coloniais, especialmente aquelas que classificaram, delimitaram e representaram territórios e populações a partir de perspectivas externas, colocando essas fontes em diálogo com a memória coletiva, a tradição oral e os conhecimentos produzidos pelos próprios sujeitos dos territórios. Trata-se também de uma luta pelo reconhecimento de seus direitos intelectuais, culturais e territoriais.
Nessa direção, cartografar saberes envolve a construção de epistemologias que caminhem junto aos povos indígenas e às comunidades tradicionais, reconhecendo cosmologias nas quais divindades, encantados e diferentes seres da natureza possuem história, agência e relações próprias com os territórios. Significa também reconhecer conhecimentos e práticas medicinais tradicionais transmitidos entre gerações, questionando os limites de uma concepção estritamente antropocêntrica do mundo, sem apagar as diferenças étnicas, raciais, históricas e territoriais existentes entre os diversos povos e comunidades.
Essas perspectivas já encontram expressão concreta em experiências desenvolvidas nos próprios territórios, como os chamados "museus vivos", centros comunitários de memória e outros espaços constituídos por seus próprios agentes. Neles, território e identidade são permanentemente reconstruídos por meio daquilo que podemos compreender como uma presencialidade do passado: um passado que não permanece imóvel, mas que é ressignificado, atualizado e recolocado no presente.
Artefatos, vestígios arqueológicos, narrativas orais, fontes escritas, imagens, memórias familiares e territoriais passam, assim, a integrar espaços nos quais a história de cada povo se movimenta e se posiciona de maneira dinâmica e plural.
A essa perspectiva soma-se a construção de bibliotecas próprias e acervos específicos para escolas comunitárias, territórios tradicionais e periferias urbanas, fortalecendo processos autônomos de formação, pesquisa, transmissão da memória e produção do conhecimento.
"Ajuntávamo-nos, só para nós, os astutos: deixemos que se esgoelem, isso os alivia, cão que ladra não morde."
A provocação apresentada por Sartre no prefácio de Os condenados da terra, de Frantz Fanon, remete à arrogância colonial das elites diante das vozes dos povos submetidos à ordem europeia. Ela permite interrogar também as formas contemporâneas pelas quais indígenas, negros, ribeirinhos e outros sujeitos latino-americanos são reconhecidos quando se aproximam dos padrões intelectuais, culturais e institucionais considerados legítimos pelo chamado "velho mundo".
Que reconhecimento é esse?
Até que ponto negros e indígenas precisam tornar-se "greco-latinos", portadores de títulos, diplomas e medalhas de reconhecimento, para que suas vozes sejam consideradas legítimas? E que contradições permanecem inscritas nas próprias ideias de progresso, modernidade e desenvolvimento quando atravessadas pelo colonialismo interno?
Há efetivamente democracia étnico-racial quando determinados conhecimentos, sujeitos e territórios continuam submetidos a hierarquias históricas de reconhecimento — seja no capitalismo, seja em experiências políticas que se anunciam como alternativas a ele?
Em tempos de recrudescimento dos fascismos e de permanência de racismos e ecos machistas — inclusive nas zonas obscuras que atravessam tanto a direita quanto setores da esquerda — permanecem algumas perguntas:
Podem os intelectuais, agentes sociais e sujeitos étnicos historicamente subalternizados falar?
Quem decide quando suas vozes são legítimas?
Podem aqueles que foram historicamente transformados em objetos da escrita, da pesquisa e da administração institucional tornar-se autores de suas próprias narrativas?
Podem os "desajustados" da ordem e os "condenados da terra" reescrever sua própria História?
A prosseguir.
Alanna Souto Cardoso Tupinambá - Direção Geral do Instituto Cartografando Saberes
Doutora em Desenvolvimento Socioambiental pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU), do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA). Realizou pós-doutorado no Programa de Cartografia Social e Política da Amazônia, vinculado ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), em 2019, e pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade do Estado do Pará (PPGG/UEPA), entre novembro de 2022 e outubro de 2024.
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